Para alguém como eu, que está fora das redes sociais, há muita coisa que nos passa ao lado. Há tendências, hábitos diários, jogos, apostas – tudo e inglês, claro, que em estrangeiro fica mais cool – e as pessoas vão-se divertindo e divertindo outras pessoas. Nada contra, só não é a minha cena. A chatice é nunca estar a par, e portanto, nunca saber como começou (como a parvoíce do six-seven).
A tendência, ou comportamento, ou o que se quiser chamar, que me faz mais confusão e que não percebo de forma nenhuma é a de fazer vídeos dentro do carro. Não tenho outra forma de me expressar, simplesmente, não percebo. O que vejo de influenciadores são pessoas que não conheço a falar dentro dos seus carros. De novo, nada contra, também já tive grandes conversas dentro de carros, mas normalmente estão lá mais pessoas.
Nos vídeos que vi, costuma ser uma pessoa sozinha, a comentar ou contar alguma coisa que aconteceu ou que leu na altura. Se for depois de sair da mercearia, ainda percebo. Passou-se isto assim-assim, vou partilhar. Mas mesmo nesta situação, porque não contar aos amigos? É mais importante que estranhos saibam que a velha do 6º direito nos atirou o cesto ao chão para poder passar à frente do que amigos? É que nem há a desculpa do “assim vai para todos ao mesmo tempo”, porque toda a gente tem chats de grupo. Além disso, ninguém ouve mensagens de voz, quanto mais vídeos. Se for importante, manda-se mensagem. Mais estranho que isto, só comentar notícias no carro. “Ah e tal, acabei de ler que certa pessoa disse coiso mas na verdade…”, depois diz-se que não, acrescenta-se um insulto discreto, e pronto, está feito.
Agora, a real questão: o que estavam essas pessoas a fazer para ter lido uma coisa no carro? Saíram de casa para ler notícias no carro? Estavam a ler no telefone e chegaram naquele momento ao carro? Estavam a guiar enquanto liam? Isso é perigosíssimo! Não terá sido antes ouvido na rádio? São dúvidas que tenho, porque não presto atenção suficiente para me lembrar da conversa, fico só a pensar nisto. Estes vídeos dão a ideia de que são uma coisa do momento, estou a reagir ao que aconteceu agora mesmo e tenho de deitar cá para fora. Mas, na verdade, têm vários takes e são editados até ficarem no ponto, o que significa que podiam ser, e foram mesmo, feitos em casa.
Há quem diga que os influenciadores não trabalham, ideia transmitida pela popular frase “não fazem nada”. Mas, aparentemente, fazem. Vão até ao carro, e passam muito tempo no carro. Na volta, estão tão habituados a ser vistos a não fazer nada, que acabam por ir para um sítio público, para serem vistos a não fazer nada ao vivo.