Hoje em dia, vivemos num mundo onde tudo é comentário. Sempre foi comentado, mas agora é diferente. E mais frequente, também. Então futebol, para além de estar sempre a dar, há programas diários de várias horas a comentar futebol, programas antes, durante, e depois dos jogos, para comentar tudo o que possa ser comentado. Mas vamos sair desse mundo, se não ficávamos aqui até ao ano novo.
Uma coisa boa da pandemia foi passar a haver especialistas a comentar tudo a partir de casa. Felizmente, este hábito manteve-se depois do confinamento. Dantes, os especialistas tinham de ir até aos estúdios, agora podem evitar o trânsito. Quem já apanhou trânsito sabe que isto é um ponto positivo em qualquer proposta de trabalho. Para mim, o mais giro é ver as estantes atrás das pessoas. Nem presto atenção ao que dizem, ando a virar a cabeça para ler as lombadas. Uma coisa fácil de ver é que ninguém lê por entretenimento. Economistas têm livros de economia, virologistas sobre vírus, e desportistas sobre alto rendimento (título partilhado com especialistas em bolsa, mas com temas diferentes). Quer dizer, não têm nada para ler quando não estão a trabalhar? Quando estão na cama ou na casa de banho lêem sobre as grandes mudanças socioeconómicas do século XX? É que nem sequer há o livro (aliás, três) que devia estar em todas as casas, o Senhor dos Anéis. A gente não lê?
Depois vemos a diferença entre Portugal e EUA: em Portugal, as estantes são mais discretas, talvez mais desarrumadas, mas sem grandes destaques, pelo menos pelo que vi; já nos EUA, fiéis à sua cultura, o exibicionismo impera. Os especialistas convidados põem os livros que querem mostrar em destaque para aparecer na câmara por cima dos ombros, e deixam uns pousados de frente, como qualquer pessoa normal faz, para terem a certeza que se vê a capa. Curiosamente, a maior parte das vezes é o livro mais recente do próprio especialista, ou o A Promised Land, do Obama. Pelo meio, estão uns bustos do Teddy Roosevelt ou do Kennedy, que é também uma coisa normal que as pessoas normais têm: presidentes favoritos.
Serão pessoas inseguras, e querem ter a certeza que o público percebe que são dedicadas ao trabalho? Que economistas lêem sobre economia já todos sabemos, o interessante é saber o resto. Gostam de ficção científica? Fantástico? Thrillers de espiões? Um bocadinho de variedade faz sempre bem. Porque não mostrar que leram a série Engenhos Mortíferos, ou um busto do Franklin Pierce, só para apanhar o público desprevenido? Ou brinquedos, eu tenho um Vegeta na minha secretária, será que ninguém tem bonecos de colecção? Ou outros brinquedos, como o da senhora do País de Gales que se esqueceu de arrumar a estante antes de entrar em directo. Sempre ficávamos a saber que as pessoas tratam de si próprias.