20 fevereiro, 2026

Luzes, câmara… admissão!

    Recentemente, tenho reparado numa nova invasão na língua portuguesa. Ou, pelo menos, na imprensa portuguesa. Neste momento, há uma vaga de admissões, e não consigo encontrar a origem.
    Vejamos: este mês, com a tempestade e com a catástrofe de Leiria, Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos, entre outros, o Presidente da República falou na hipótese de se estudar o adiamento das eleições. Nas televisões e nos jornais online, o título da notícia era “PR admite adiamento”. Ouvindo a conversa, o que foi dito foi um “pois, é uma questão de se ver”. Mas assim não tem tanto impacto. E como o PR, houve uns quantos ministros a admitir coisas, foi um fartote.
    Também no futebol há admissões por todo o lado. Quando um jogador “admite sair no final da temporada”, normalmente o artigo diz “quando questionado, o centro-campista disse não saber o que vai acontecer no Verão”. Se um treinador admite uma contratação falhada, o mais provável é ter dito “não tem sido o que esperávamos”. E se uma equipa admite não ir a jogo, então de certeza que só estava a falar de um campo que está em mau estado.
    Eu proponho aproveitar a onda e passar a usar isto como padrão. Sempre que alguém não ponha de parte uma opção, admite essa opção. Um ministro ainda não decidiu como vai de Lisboa ao Porto? Então admite ir de avião. O contrato das redes está a chegar ao fim? Operadora admite cortar comunicações. O Songoku não existe? É verdade, mas a ONU pode admitir que o Freezer é capaz de destruir o planeta. Porque não criar um modelo e adaptar a cada situação? Assim cada jornal pode criar maior número de notícias por dia, e aumentar os seus indicadores de performance e de “engajamento”, ou outro jargão corporativo da treta que se use. Mas pronto, fica a sugestão. Os jornais desportivos usam modelos há anos e parece dar resultado.

20 janeiro, 2026

A magia do cinema

    Ir ao cinema é uma experiência mágica. É ver coisas inimagináveis acontecer e, no caso dos filmes de terror, pessoas a tomar decisões parvas que nenhuma pessoa normal tomaria. No entanto, a coisa mais irreal não é viajar pelo multiverso, a Força, ou o Tom Cruise a correr sem parar durante duas horas. É que, no final, os bons ganham.
    Ora bem, o império é derrotado, os humanos são expulsos de Pandora, a guerra nuclear não rebenta, e o anel é destruído. Não há como negar. Na fantasia e ficção científica, é mágico mas irreal, no resto, nas coisas que acontecem no dia a dia normal, é absurdo e improvável, e acaba sempre bem. De forma mais ou menos legal, mas bem.
    No mundo real, não é bem assim. A Ucrânia continua em sofrimento e vai provavelmente ser entalada, na Palestina igual, os protestos Mahsa Amini não mudaram nada e a sequela deste ano ainda está por decidir, e, no início do ano, uma pessoa que quer receber o Nobel da Paz à força, atacou um país estrangeiro, provavelmente de forma pacífica, que curiosamente tem as maiores reservas de petróleo do mundo e não deixa os EUA lá entrar. Antes disso, já tinha feito umas coisas no Irão e na Nigéria, também pacificamente, e agora quer atacar os aliados da NATO. E brevemente num cinema perto de si, Taiwan, para não falar na idade do Dalai Lama e no que virá a seguir.
    Afinal, o George Orwell tinha razão, só se enganou no ano. Mas quem nunca se enganou que atire a primeira pedra.

20 dezembro, 2025

Perdido na tradução

    Cada língua tem as suas particularidades e algumas coisas não têm tradução. O caso mais famoso é a palavra saudade, mas também podemos referir o mais obscuro fni (sensação de ter a meia enrolada no calcanhar). No entanto, a geografia é quem perde mais.
    Por exemplo, em Inglaterra muitos nomes têm origens normais. Newcastle upon Tyne é fácil de perceber de onde vem, e Stoke-on-Trent é parecido, sendo que Stoke tem origem na palavra stoc do inglês antigo que significa lugar, no rio Trent. Mesmo York (onde o imperador Constantino foi coroado) tem origem no termo Eoforwic, que depois ficou Éorvik, Jórvik, Jórk, e por fim, York. Já no País de Gales, optaram por atirar letras ao calhas.
    Nos Estados Unidos, tirando os nomes de pessoas ou das cidades europeias de onde a população tinha origem, é bastante mais prático. Temos o exemplo de Riverbend, que é a zona onde um rio faz um cotovelo. Simples e directo. Nos Estados Unidos, há pelo menos sete, no Canadá mais três,  e na Austrália mais um. Little Rock, capital do estado do Arkansas (que não se lê Arkansas), tem o nome de uma formação rochosa usada por viajantes para localização.
    Mas nenhum deles tem nada como Gulpilhares. Quando procurei pela origem do nome, descobri que vem de vulpe, raposa em latim. Não chegava lá, mas esta é uma evolução que claramente acrescentou valor ao nome. Gulpilhares é uma palavra cómica de se dizer, mas como é que se traduz para inglês? E fica bem? Pois. Mafamude e Alpiarça também. Outra difícil de traduzir é Carrazeda de Ansiães. Também temos nomes que são bastante mais directos. Para Freixo de Espada à Cinta é fácil de perceber a origem, apesar de lendária, mas há melhores. Carne Assada, em Sintra. Orelhudo, em Coimbra. Convém não dormir em Alhandra, pois tem uma Cama Porca, e ter cuidado em Ponte de Lima, para não cair no Rego do Azar. Em Arganil, alguém ficou com os Pés Escaldados, e mesmo que o Rego do Azar tenha água, é muito longe para lá ir ter. Por fim, passando em Santiago do Cacém, temos também Deixa-o-Resto.
    E assim andamos pelos caminhos de Portugal, sabendo que em lado nenhum há um nome melhor que Gulpilhares.

20 novembro, 2025

Chá, café, laranjada?

    – Devo dizer que estou muito contente com o seu progresso.
    – Eu também, sinto-me muito melhor. É como se me tivesse saído um peso de cima, sinto-me solto. Nunca pensei que fosse capaz de falar sobre isto.
    – Compreendo, mas nota-se uma grande melhoria. Consigo ver que está muito mais à vontade a falar, e mesmo fisicamente está mais descontraído. E, agora que este assunto está bem encaminhado, espero que saiba que aqui pode falar de tudo o que quiser, qualquer dúvida que tenha.
    – Por acaso, há uma coisa que me incomoda muito, se puder ser.
    – Claro, o que é?
    – Sabe aquelas pessoas que dizem “ah e tal, não funciono sem tomar dois cafés”?
    – Sim… Não gosta de café?
    – Sim, sim, também bebo. Mas já reparou que nunca é outra bebida? É sempre café, ninguém diz que precisa de um chá ou de uma limonada a meio da manhã para conseguir trabalhar. “Tomo um café ao pequeno-almoço e depois preciso de outro a meio da manhã, se não, não funciono”, ou “não fales comigo, que até ao segundo café estou de mau humor”. Se eu dissesse que precisava de um copo de leite às 11 da manhã, achavam que estava maluco, mas café já pode ser. E porque não sumo de laranja? Dizer “sem um sumo depois do almoço, nem aguento a tarde” já é absurdo. Mas café, não. Um iogurte para aconchegar o estômago, não, café, sim. E ainda por cima, não são dois cafés por dia, tem de ser de manhã, porque depois de almoço já não conseguem dormir. Não é estranho?
    – Acho melhor pararmos estas sessões.

20 outubro, 2025

Já foste

    E a partir deste momento, um pouco de parvoíce em torno de sinónimos. Assim começa um sketch de Gato Fedorento. Não tenho mais nada a acrescentar, vou só aproveitar para usar o tema para uma coisa que me incomoda.
    Desemprego. Não tanto o estar desempregado, mas o deixar de ter emprego. Isto porque há montes de formas de ficar desempregado. No meu caso, que não tenho perfil para mandar em ninguém e sempre fui funcionário, posso ser despedido, ou despedir-me, dependendo de quem parte a iniciativa. Mas! Se fosse director de qualquer coisa, já seria demitido, ou me demitia. E isto incomoda-me. Na prática, são a mesma coisa, mas eu, enquanto mera engrenagem a mando do capital, nunca vou ser demitido, nem o meu chefe despedido. Nem nenhum de nós sofrerá o destino dos treinadores de futebol, que são afastados do cargo.
    E mais, subindo na hierarquia, nada disto acontece. Os “C-levels“ e administradores, e especialmente no sector público, já renunciam. Talvez um ou outro resigne, mas é raro. Se fizerem alguma asneira, aí já são destituídos, e se forem apanhados a fazer asneira, são imediatamente exonerados. Não posso dizer que o tempo em que estive desempregado tenha sido agradável, mas gostava de saber se a sensação é a mesma se for exonerado. Tem uma sonoridade mais requintada. Quase como ser despedido em Cascais ou na Comporta.
    Tudo isto quando já existe um verbo específico para a situação, que é “desempregar”, verbo transitivo de conjugação regular. Sobre isto é que o acordo ortográfico não fala, nem o Código do Trabalho. Esta sim, é a verdadeira luta pela igualdade laboral.

20 setembro, 2025

Como lidar com um amigo que tem sempre razão

    É uma pergunta, na verdade. Eu tenho um amigo que tem sempre razão, e não sei o que fazer. É bastante incómodo, porque argumentar dá-lhe combustível para chatear, e ficar calado alimenta a sensação de ter razão e “estar a ganhar”. De qualquer das formas, não pára de falar.
    E fala de tudo. É um tudólogo, cujo vasto conhecimento vai de macroeconomia ou geopolítica a períodos de gestação de diversos animais. E, como é óbvio, o que diz está certo, mesmo que soe a qualquer coisa absurda. Normalmente, começa com “vocês sabem o que é…” e diz uma frase aleatória, para depois poder acrescentar “é que as pessoas pensam isto e isto, mas não é bem assim”, e remata que ele é que sabe a verdadeira resposta. Pelo meio, deixa uns detalhes no ar com um “mas isso agora não interessa”, para mostrar que sabe ainda mais do que está a dizer.
    Se alguém duvidar do que está a dizer, ele não desiste até vergar essa pessoa à sua opinião. Se houver muita insistência, então aí há sempre um telefone discreto para procurar mais informação, mesmo que seja como os conspiracionistas que só procuram argumentos a favor. Por exemplo, há pouco tempo estivemos em Istambul, e ele comentou que a cidade era muito menos húmida que Lisboa, o que me pareceu estranho, porque, apesar de não estar à beira do oceano, é uma península com muito mar à volta. Na altura, não tínhamos internet, então o telefone apareceu umas horas mais tarde, para dizer que a humidade média em Lisboa era 3% mais alta do que em Istambul, portanto ele tinha razão. E segue por ali fora, sem aceitar que alguém o contradiga. Curiosamente, conta muitas vezes que tem colegas de trabalho com ideais políticos do espectro oposto ao dele (que não é propriamente bom), e que não discute política com eles porque o tentam forçar a aceitar a visão deles. Pois.
    Em geral, só respondo em duas situações: quando ele diz alguma barbaridade injustificável, ou com banhos de água fria. Eu gosto de tomar banho de água fria no Verão. Já li sobre o que o corpo faz, não tenho nada contra, só sei que com água fria fico fresco a manhã toda, e com água quente transpiro mais. Resposta final: sinto-me melhor com água fria, e isso deixa-o doido, o que é hilariante. Quando falamos do assunto, não aceita que isso possa acontecer e não me larga até eu dizer que estou errado, que ele sabe melhor o que sinto no meu corpo do que eu. E aproveito para argumentar que quando se vai à praia, está calor e tal, se dá um mergulho para aquecer mais um bocadinho, e que as pessoas que caem em água gelada no Inverno morrem de calor. Temos um amigo em comum que comprou uma daquelas piscinas desmontáveis fantásticas, mas, ingenuamente, só a monta no Verão. Como a água está fria, acabamos por nunca a usar, para não ficar com calor.
    Portanto, é isto. Gostava de saber como lidar com ele. Normalmente, não lhe respondo, mas ele há-de perceber que não oiço metade do que diz e é capaz de se chatear. Convém ter umas alternativas no bolso.

20 agosto, 2025

Por favor, aguarde

    Recentemente, viajei. É normal, muita gente o faz. Ainda por cima, estamos no Verão, quando mais se viaja. No entanto, vou fazer o que as pessoas que passam a vida nas redes sociais fazem: queixar-me de viagens.
    Esta viagem foi de avião, muito prático, e até essencial na mudança de continentes. Não sou um grande fã, prefiro andar de comboio, mas há sítios onde não dá para ir de comboio e, se formos, quando lá chegarmos, está na hora de começar a viagem de volta, o que só faz sentido se o objectivo for a viagem de comboio, tipo o transiberiano ou o expresso do oriente. Mas se o objectivo é passear pelo país de destino, então avião é melhor.
    A questão é que andar de avião é uma chatice. Vamos para o aeroporto para ficar à espera para fazer check-in, para depois ficar à espera da nossa vez na zona de segurança, esperar para saber a porta, esperar que a porta abra, esperar para entrar no avião, esperar que aquela família arrume as suas sete malas, esperar que o avião levante vôo, esperar para chegar, esperar para sair do avião, esperar pela mala, e, finalmente, esperar pelo transporte até ao hotel. Andar de avião é basicamente uma espera de 12 horas. E, por algum motivo misterioso, é preciso estar no aeroporto às 5 da manhã, para a espera começar pela fresca. No regresso, é igual, mas chegamos a casa depois da meia-noite. E durante este tempo todo, não podemos ir a lado nenhum, temos de ficar onde estamos.
    No comboio, não se espera tanto. Há atrasos e tal, mas são de um quarto de hora ou qualquer coisa parecida, e a viagem é bastante mais agradável, e confortável. A espera mais chata é na estação, onde os avisos de atraso são um autêntico contratempo. A mensagem gravada diz, pausadamente, que “o comboio intercidades, CP longo curso, proveniente de Coimbra B com destino a Lisboa Santa Apolónia, que deverá dar entrada na linha número 2, circula com um atraso de… 14 minutos. A sua hora prevista de chegada é às 15h44”. Entretanto, já adormeci. Não bastava dizer “o intercidades das 15h30 para Lisboa está atrasado 14 minutos”? As pessoas chegaram à hora marcada e nota-se se um comboio gigante não estiver na estação. E é preciso dizer “intercidades, CP longo curso”? Um intercidades é de longo curso por definição, se não, era um regional ou um urbano (o regional começa o aviso com “o comboio regional, CP regional…” para o caso de alguém não ter percebido que era regional). De resto, é só seguir até ao fim e ir de metro para casa.
    Fora estas partes, o resto da viagem foi muito boa. Recomendo a quem gostar de conhecer sítios diferentes. Só é pena ter de viajar para lá chegar.