20 abril, 2026

Por favor, tente mais tarde

    Este ano, tive uma Páscoa diferente. No domingo, recebi uma chamada de um amigo, que não podia atender no momento. Guardei o telefone no bolso, acabei o que estava a fazer e, quatro minutos depois da chamada, voltei a tirá-lo do bolso. O que vi foi o ecrã preto, e o telefone não respondia. Tinha carregado o telefone naquela manhã, mas já tive problemas de bateria, portanto pensei que podia ser mais do mesmo. Tentei aquelas técnicas de forçar o arranque, voltei a ligar à corrente, mas nada.
    Pronto, é o que é. Na manhã seguinte, avisei no trabalho que estava sem telefone, e fui tentar arranjá-lo, porque há coisas no trabalho que dependem do telefone. Quando estava a sair de casa, pensei ver o horário do sítio onde o ia arranjar… só que não dá, não há telefone. Volta atrás para ver no pc. Saí e no elevador lembrei-me de ver se estava trânsito, mas também não dava. Portanto, olha, fui à aventura sem saber se ia ficar preso na estrada, como uma pessoa dos anos 90. Cheguei ao primeiro semáforo e vi qualquer coisa cair mesmo à frente do carro. Achei estranho e olhei para cima, e estava uma gaivota no topo do poste de iluminação mesmo ao meu lado, a fazer as suas necessidades. Por sorte, estava virada para mim, se estivesse de costas acertava no carro. Mas pronto, segui em frente, enquanto na rádio passava o grande (talvez único?) êxito dos Excesso, “Eu Sou Aquele”. Como qualquer pessoa normal, pensei que tinha de dizer aos meus amigos o que estava a acontecer, mas não dava… voltei à infância e tive de esperar pela manhã seguinte para lhes contar na escola.
    Cheguei à loja, e que vejo? A electricidade tinha ido abaixo na rua inteira. Não sei como é que o karma funciona, mas dei uns quantos ovos de chocolate que descobri aos meus primos mais novos, não merecia isto. Devia ter dado todos, é isso? Bom, acabou por não ser um problema, porque o centro comercial estava a funcionar normalmente. Ou, pelo menos, o suficiente para me dizerem que o problema era da motherboard, e não havia nada a fazer, portanto, tive de comprar um telefone novo, e usar um antigo sabiamente guardado pelo meu irmão até o receber.
    Posto isto, passado uns dias recebo o telefone, e começo todo o processo de o pôr operacional, que inclui uns quantos momentos frustrantes de aplicações a quererem mandar mensagens de confirmação para o telefone antigo, mas resolveu-se tudo. Assim que fica tudo a funcionar, começo a receber mensagens acumuladas de pessoas a querer combinar coisas, e a perguntar 3 dias depois se já estava marcado. Aparentemente, o sinal de mensagem não entregue e a falta de resposta não levantam questões. Fica o alerta para quem vive sozinho, os vossos amigos não prestam assim tanta atenção.
    No fim, ficou tudo bem, e já voltou tudo ao normal, ficando só a dúvida sobre o que poderá ter originado o falecimento. Sendo domingo de Páscoa, se calhar o telefone ascendeu. Podia era ter dado os três dias de aviso. Mas o que é certo é que o mundo estava melhor quando a Blackberry fazia telefones. 

20 março, 2026

Tráfego de influências

    Para alguém como eu, que está fora das redes sociais, há muita coisa que nos passa ao lado. Há tendências, hábitos diários, jogos, apostas – tudo e inglês, claro, que em estrangeiro fica mais cool – e as pessoas vão-se divertindo e divertindo outras pessoas. Nada contra, só não é a minha cena. A chatice é nunca estar a par, e portanto, nunca saber como começou (como a parvoíce do six-seven).
    A tendência, ou comportamento, ou o que se quiser chamar, que me faz mais confusão e que não percebo de forma nenhuma é a de fazer vídeos dentro do carro. Não tenho outra forma de me expressar, simplesmente, não percebo. O que vejo de influenciadores são pessoas que não conheço a falar dentro dos seus carros. De novo, nada contra, também já tive grandes conversas dentro de carros, mas normalmente estão lá mais pessoas. 
    Nos vídeos que vi, costuma ser uma pessoa sozinha, a comentar ou contar alguma coisa que aconteceu ou que leu na altura. Se for depois de sair da mercearia, ainda percebo. Passou-se isto assim-assim, vou partilhar. Mas mesmo nesta situação, porque não contar aos amigos? É mais importante que estranhos saibam que a velha do 6º direito nos atirou o cesto ao chão para poder passar à frente do que amigos? É que nem há a desculpa do “assim vai para todos ao mesmo tempo”, porque toda a gente tem chats de grupo. Além disso, ninguém ouve mensagens de voz, quanto mais vídeos. Se for importante, manda-se mensagem. Mais estranho que isto, só comentar notícias no carro. “Ah e tal, acabei de ler que certa pessoa disse coiso mas na verdade…”, depois diz-se que não, acrescenta-se um insulto discreto, e pronto, está feito.
    Agora, a real questão: o que estavam essas pessoas a fazer para ter lido uma coisa no carro? Saíram de casa para ler notícias no carro? Estavam a ler no telefone e chegaram naquele momento ao carro? Estavam a guiar enquanto liam? Isso é perigosíssimo! Não terá sido antes ouvido na rádio? São dúvidas que tenho, porque não presto atenção suficiente para me lembrar da conversa, fico só a pensar nisto. Estes vídeos dão a ideia de que são uma coisa do momento, estou a reagir ao que aconteceu agora mesmo e tenho de deitar cá para fora. Mas, na verdade, têm vários takes e são editados até ficarem no ponto, o que significa que podiam ser, e foram mesmo, feitos em casa.
    Há quem diga que os influenciadores não trabalham, ideia transmitida pela popular frase “não fazem nada”. Mas, aparentemente, fazem. Vão até ao carro, e passam muito tempo no carro. Na volta, estão tão habituados a ser vistos a não fazer nada, que acabam por ir para um sítio público, para serem vistos a não fazer nada ao vivo.

20 fevereiro, 2026

Luzes, câmara… admissão!

    Recentemente, tenho reparado numa nova invasão na língua portuguesa. Ou, pelo menos, na imprensa portuguesa. Neste momento, há uma vaga de admissões, e não consigo encontrar a origem.
    Vejamos: este mês, com a tempestade e com a catástrofe de Leiria, Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos, entre outros, o Presidente da República falou na hipótese de se estudar o adiamento das eleições. Nas televisões e nos jornais online, o título da notícia era “PR admite adiamento”. Ouvindo a conversa, o que foi dito foi um “pois, é uma questão de se ver”. Mas assim não tem tanto impacto. E como o PR, houve uns quantos ministros a admitir coisas, foi um fartote.
    Também no futebol há admissões por todo o lado. Quando um jogador “admite sair no final da temporada”, normalmente o artigo diz “quando questionado, o centro-campista disse não saber o que vai acontecer no Verão”. Se um treinador admite uma contratação falhada, o mais provável é ter dito “não tem sido o que esperávamos”. E se uma equipa admite não ir a jogo, então de certeza que só estava a falar de um campo que está em mau estado.
    Eu proponho aproveitar a onda e passar a usar isto como padrão. Sempre que alguém não ponha de parte uma opção, admite essa opção. Um ministro ainda não decidiu como vai de Lisboa ao Porto? Então admite ir de avião. O contrato das redes está a chegar ao fim? Operadora admite cortar comunicações. O Songoku não existe? É verdade, mas a ONU pode admitir que o Freezer é capaz de destruir o planeta. Porque não criar um modelo e adaptar a cada situação? Assim cada jornal pode criar maior número de notícias por dia, e aumentar os seus indicadores de performance e de “engajamento”, ou outro jargão corporativo da treta que se use. Mas pronto, fica a sugestão. Os jornais desportivos usam modelos há anos e parece dar resultado.

20 janeiro, 2026

A magia do cinema

    Ir ao cinema é uma experiência mágica. É ver coisas inimagináveis acontecer e, no caso dos filmes de terror, pessoas a tomar decisões parvas que nenhuma pessoa normal tomaria. No entanto, a coisa mais irreal não é viajar pelo multiverso, a Força, ou o Tom Cruise a correr sem parar durante duas horas. É que, no final, os bons ganham.
    Ora bem, o império é derrotado, os humanos são expulsos de Pandora, a guerra nuclear não rebenta, e o anel é destruído. Não há como negar. Na fantasia e ficção científica, é mágico mas irreal, no resto, nas coisas que acontecem no dia a dia normal, é absurdo e improvável, e acaba sempre bem. De forma mais ou menos legal, mas bem.
    No mundo real, não é bem assim. A Ucrânia continua em sofrimento e vai provavelmente ser entalada, na Palestina igual, os protestos Mahsa Amini não mudaram nada e a sequela deste ano ainda está por decidir, e, no início do ano, uma pessoa que quer receber o Nobel da Paz à força, atacou um país estrangeiro, provavelmente de forma pacífica, que curiosamente tem as maiores reservas de petróleo do mundo e não deixa os EUA lá entrar. Antes disso, já tinha feito umas coisas no Irão e na Nigéria, também pacificamente, e agora quer atacar os aliados da NATO. E brevemente num cinema perto de si, Taiwan, para não falar na idade do Dalai Lama e no que virá a seguir.
    Afinal, o George Orwell tinha razão, só se enganou no ano. Mas quem nunca se enganou que atire a primeira pedra.

20 dezembro, 2025

Perdido na tradução

    Cada língua tem as suas particularidades e algumas coisas não têm tradução. O caso mais famoso é a palavra saudade, mas também podemos referir o mais obscuro fni (sensação de ter a meia enrolada no calcanhar). No entanto, a geografia é quem perde mais.
    Por exemplo, em Inglaterra muitos nomes têm origens normais. Newcastle upon Tyne é fácil de perceber de onde vem, e Stoke-on-Trent é parecido, sendo que Stoke tem origem na palavra stoc do inglês antigo que significa lugar, no rio Trent. Mesmo York (onde o imperador Constantino foi coroado) tem origem no termo Eoforwic, que depois ficou Éorvik, Jórvik, Jórk, e por fim, York. Já no País de Gales, optaram por atirar letras ao calhas.
    Nos Estados Unidos, tirando os nomes de pessoas ou das cidades europeias de onde a população tinha origem, é bastante mais prático. Temos o exemplo de Riverbend, que é a zona onde um rio faz um cotovelo. Simples e directo. Nos Estados Unidos, há pelo menos sete, no Canadá mais três,  e na Austrália mais um. Little Rock, capital do estado do Arkansas (que não se lê Arkansas), tem o nome de uma formação rochosa usada por viajantes para localização.
    Mas nenhum deles tem nada como Gulpilhares. Quando procurei pela origem do nome, descobri que vem de vulpe, raposa em latim. Não chegava lá, mas esta é uma evolução que claramente acrescentou valor ao nome. Gulpilhares é uma palavra cómica de se dizer, mas como é que se traduz para inglês? E fica bem? Pois. Mafamude e Alpiarça também. Outra difícil de traduzir é Carrazeda de Ansiães. Também temos nomes que são bastante mais directos. Para Freixo de Espada à Cinta é fácil de perceber a origem, apesar de lendária, mas há melhores. Carne Assada, em Sintra. Orelhudo, em Coimbra. Convém não dormir em Alhandra, pois tem uma Cama Porca, e ter cuidado em Ponte de Lima, para não cair no Rego do Azar. Em Arganil, alguém ficou com os Pés Escaldados, e mesmo que o Rego do Azar tenha água, é muito longe para lá ir ter. Por fim, passando em Santiago do Cacém, temos também Deixa-o-Resto.
    E assim andamos pelos caminhos de Portugal, sabendo que em lado nenhum há um nome melhor que Gulpilhares.

20 novembro, 2025

Chá, café, laranjada?

    – Devo dizer que estou muito contente com o seu progresso.
    – Eu também, sinto-me muito melhor. É como se me tivesse saído um peso de cima, sinto-me solto. Nunca pensei que fosse capaz de falar sobre isto.
    – Compreendo, mas nota-se uma grande melhoria. Consigo ver que está muito mais à vontade a falar, e mesmo fisicamente está mais descontraído. E, agora que este assunto está bem encaminhado, espero que saiba que aqui pode falar de tudo o que quiser, qualquer dúvida que tenha.
    – Por acaso, há uma coisa que me incomoda muito, se puder ser.
    – Claro, o que é?
    – Sabe aquelas pessoas que dizem “ah e tal, não funciono sem tomar dois cafés”?
    – Sim… Não gosta de café?
    – Sim, sim, também bebo. Mas já reparou que nunca é outra bebida? É sempre café, ninguém diz que precisa de um chá ou de uma limonada a meio da manhã para conseguir trabalhar. “Tomo um café ao pequeno-almoço e depois preciso de outro a meio da manhã, se não, não funciono”, ou “não fales comigo, que até ao segundo café estou de mau humor”. Se eu dissesse que precisava de um copo de leite às 11 da manhã, achavam que estava maluco, mas café já pode ser. E porque não sumo de laranja? Dizer “sem um sumo depois do almoço, nem aguento a tarde” já é absurdo. Mas café, não. Um iogurte para aconchegar o estômago, não, café, sim. E ainda por cima, não são dois cafés por dia, tem de ser de manhã, porque depois de almoço já não conseguem dormir. Não é estranho?
    – Acho melhor pararmos estas sessões.

20 outubro, 2025

Já foste

    E a partir deste momento, um pouco de parvoíce em torno de sinónimos. Assim começa um sketch de Gato Fedorento. Não tenho mais nada a acrescentar, vou só aproveitar para usar o tema para uma coisa que me incomoda.
    Desemprego. Não tanto o estar desempregado, mas o deixar de ter emprego. Isto porque há montes de formas de ficar desempregado. No meu caso, que não tenho perfil para mandar em ninguém e sempre fui funcionário, posso ser despedido, ou despedir-me, dependendo de quem toma a iniciativa. Mas! Se fosse director de qualquer coisa, já seria demitido, ou me demitia. E isto incomoda-me. Na prática, são a mesma coisa, mas eu, enquanto mera engrenagem a mando do capital, nunca vou ser demitido, nem o meu chefe despedido. Nem nenhum de nós sofrerá o destino dos treinadores de futebol, que são afastados do cargo.
    E mais, subindo na hierarquia, nada disto acontece. Os “C-levels“ e administradores, e especialmente no sector público, já renunciam. Talvez um ou outro resigne, mas é raro. Se fizerem alguma asneira, aí já são destituídos, e se forem apanhados a fazer asneira, são imediatamente exonerados. Não posso dizer que o tempo em que estive desempregado tenha sido agradável, mas gostava de saber se a sensação é a mesma se for exonerado. Tem uma sonoridade mais requintada. Quase como ser despedido em Cascais ou na Comporta.
    Tudo isto quando já existe um verbo específico para a situação, que é “desempregar”, verbo transitivo de conjugação regular. Sobre isto é que o acordo ortográfico não fala, nem o Código do Trabalho. Esta sim, é a verdadeira luta pela igualdade laboral.