14 dezembro, 2020

Chaves na mão

    Chaves na mão. Uma expressão que se tornou tão corrente que já não nos espanta quando a vemos, mas que nos indica logo que algo nos vai ser entregue na hora. Seja para carros ou casas, sabemos que vamos sair de lá com uma coisa que nos pertence. Mas o assunto é outro.
    As chaves na mão são um hábito de férias, nomeadamente de visitas. Eu passo férias numa aldeia, onde a minha família inteira sempre passou férias. Os que não o são, são conhecidos há tanto tempo que já contam como tal. Estas pessoas todas visitam-se umas às outras, para saber e contar novidades, ou ver as crianças que “iiiiiih, já estão tão grandes”.
    Tudo isto acontece com chaves na mão, porque se vai andar pelas casas todas, ou é só para contar uma coisa. Em geral, isto acaba por não ser verdade, porque as nossas visitas estão sempre de passagem, mas ficam várias horas. Com chaves na mão.
    Para mim, que sou aquele primo estranho que fica sentado sem falar e responde com monossílabos, isto é interessante. Gosto de observar e ouvir as pessoas, ver os gestos que fazem e as expressões que usam. Divirto-me com isto. É meio parvo, eu sei, mas o meu Mr. Burns é quase tão bom como o original. Na verdade, nem sempre presto atenção ao conteúdo da conversa e, às vezes, as visitas saem sem eu saber o que aconteceu. E depois faço perguntas como “a prima morreu? Quando souberam isso?” Voltando ao assunto. Acabei por reparar em alguns trejeitos que as visitas partilham: agitar as chaves enquanto se fala, brincar com os porta-chaves, ou brincar com as chaves.
    Agitar as chaves acrescenta sempre qualquer coisa ao assunto. Mexer os braços é expressivo, mas fazê-lo com banda sonora ainda o é mais. A indústria do cinema vive disso. Mais, há sempre a hipótese de apanhar um bocadinho de luz e temos uma bola de espelhos instantânea. Afinal, estamos de férias, há que curtir. Brincar com o porta-chaves é um pouco mais simples, se for uma fita, passar a mão pela fita de uma ponta à outra e recomeçar, se for algo mais sólido, agitar ao de leve e deixar pronto para ir embora, para depois voltar a agitar. Normalmente, estes movimentos só são interrompidos por notícias bombásticas.
    Brincar com as chaves é mais interactivo, porque dá para tentar descobrir padrões nos movimentos e tentar prever o que vem a seguir. Também é frustrante, porque nem sempre acontece o que conseguimos prever através de extensas observações. Por exemplo, quando a visita tem três chaves e está só a brincar com duas. A costela obsessiva começa logo a dar sinal de vida. “Porque é que a terceira não foi? É melhor recomeçar. Outra vez?! Faz a terceira! EH PÁ!” e depois é preciso pensar noutra coisa qualquer para acalmar, mudar o foco da atenção. Perguntar pela prima. “Bem... A prima morreu...”

30 novembro, 2020

Falemos de horas

    Horas. Aquilo que nos diz que não podemos dormir mais, que já devíamos ter começado a estudar, ou que estamos atrasados para o trabalho. Não no meu caso, estou desempregado e já acabei de estudar há algum tempo. Mas enquanto estudei e trabalhei, sofri com estes problemas. Claro que “problemas” é uma palavra muito forte para o que referi. O verdadeiro problema é como as horas são ditas.
    Todos os relógios digitais que usei tinham a apresentação em 24 horas, mas sempre li as horas da uma às onze, e depois ou era meio-dia ou meia-noite e tal. Contudo, a convivência com outras pessoas mostrou-me que nem todos fazem o mesmo. Perfeitamente natural. Pode até ser importante dizer as horas de 1 a 24. Para viajar de avião é essencial, é extremamente desagradável chegar ao aeroporto às duas da tarde e descobrir que o voo saiu às duas da manhã. Ou pior, chegar às duas da manhã e ver que afinal é preciso esperar doze horas.
    A CP tem o mesmo sistema. Uma vez testemunhei uma compra de um bilhete por um amigo que estava de férias em minha casa e que queria ir no comboio das quatro e dez, ao que o senhor da bilheteira respondeu que não havia comboios a essa hora. Nós mostrámos o horário onde tínhamos visto o comboio e o senhor responde “ah, o das dezasseis e dez. Sim, sim, ainda tem lugar”. Isto é um misto de preciosismo necessário e de parvoíce. Faltava um quarto de hora para o comboio passar e era óbvio que ninguém queria comprar um bilhete para as quatro da manhã a meio da tarde. Noutra situação, este preciosismo seria importante, sem dúvida. Aqui, não.
    Isto é aceitável, até recomendável. Mas há um outro tipo de pessoas, que se referem sempre pelas 24 horas. Por exemplo, para ver futebol. A conversa habitual segue esta linha:
     – Queres ver o jogo amanhã?
     – Claro. É às seis e vinte, não é?
     – Sim, deve começar por volta das dezoito e vinte.
    É preciso? Não. Se houvesse jogo às seis da manhã, nem os jogadores iam. Com a Liga dos Campeões, é o mesmo, mas é às dezanove e quarenta e cinco. Um quarto para as oito, pá! O pior de tudo é ainda haver a correcção do que eu disse, não vá eu confundir-me e tocar à campainha de madrugada. E isso nunca irá acontecer, os meus amigos sabem perfeitamente que já acabei de estudar e não trabalho, portanto, de madrugada não vou estar acordado.