21 julho, 2021

Vizinho, mudei a casa

    Fazer obras em casa é um momento marcante na vida de qualquer pessoa. Por um lado, é uma mudança, é ar fresco, limpa espaço e ideias. Por outro, traz desconforto, desarrumação, e homens a entrar-nos em casa muito cedo de manhã. Durante algum tempo, vive-se num período de confusão, com pó, barulho, e cheiros diversos daquela espécie de cartão que se põe no chão para não sujar. Para não falar nas derrapagens. Tanto no orçamento, como no pó que está por todo o lado. Mas há uma coisa pior.
    Obras em casas de vizinhos. Sim, é pior. Em casas de vizinhos, não podemos pedir para fazer menos barulho, e temos o cheiro e o pó na nossa casa na mesma. O mais chato é, sem dúvida, o barulho. Não interessa o que se está a fazer, parece que o importante é partir pedra às 8 da manhã e às 2 da tarde em ponto, e trabalhar silenciosamente o resto do dia. É para unir duas divisões? Mandemos abaixo esta parede, faz sentido. É para pintar o tecto? Com certeza, vou só martelar um bocadinho. Na volta, é para marcar território. Também é preciso contar com as idas à carrinha para ir buscar material. À partida, sabe-se o que vai ser feito, mas é sempre bom entrar em casa e confirmar, para depois ir à carrinha buscar a marreta de partir paredes. Isto causa um uso frequente do elevador, que vai acumulando pó, que depois vem connosco para as nossas casas juntar-se ao que já lá está. Uma espécie de “Ponto de Encontro” do Henrique Mendes para pó.
    Não nos podemos esquecer que os vizinhos têm péssimo gosto. É verdade. Nos nossos prédios, só as nossas casas estão bem arranjadas. Quando nos cruzamos nas escadas com vizinhos com a porta aberta, vemos logo aquele chão de mármore cor-de-rosa reluzente, com uma pequena mesa de apoio no centro que só serve para impedir que se atravesse a sala a direito, e um candeeiro foleiro.
    Tudo isto podia ser aceitável se fosse só uma pessoa. Infelizmente, quando há obras num prédio, é logo toda a gente, uns a seguir aos outros. O 3º direito avisa que vai ter obras durante 4 semanas. Quando acaba, começa o 10º esquerdo, depois passa para o 5º, o 1º, o 8º. Temos um ano de obras contínuas, até todo o prédio ter sido remodelado, e só a nossa casa ficou bonita.

22 março, 2021

Pontos de vista – parte 1

    As coisas dependem do ponto de vista, já nos dizia Obi-Wan Kenobi. E, se formos ver o que se passa na televisão e no cinema, percebemos que ele tinha razão.
    Vamos começar com séries que envolvem as forças da lei americanas. Nas séries policiais, os polícias sabem que de vez em quando é preciso agarrar um malfeitor pelos colarinhos e gritar-lhes na cara para ele de facto assumir o que fez. Nas séries de advogados, isso é mais que suficiente para mandar o caso ao ar por força excessiva e coerção. Na outra série, a polícia diz que os advogados são uns malandros e só querem dinheiro, mas eles não se importam, porque o episódio já acabou. Quando agentes federais entram em séries de polícias, em geral são uns convencidos que vêm roubar o trabalho árduo e já quase completo para ficar com os louros e irritar os polícias. Mas nas séries com agências federais, elas têm de o fazer, heroicamente, porque é demasiada areia para o camião da polícia, e eles são incompetentes e desorganizados, coitados.
    Normalmente, o ponto em comum é o Bom principal ser o mais correcto possível e fazer tudo segundo as regras, tirando aquele email que apagou no final da primeira temporada para ajudar um amigo, e que o vai apanhar depois algures a meio da quarta temporada. Nestas situações, a interacção entre séries torna-se mais intensa. Em geral, entra um elemento de fora para poder olhar para o Bom de alto e justificar tudo o que pensa dele e dos seus colegas.
    Depois de 35 minutos a ser impedido de trabalhar, perseguido, e todo um monte de outras chatices, o Bom acaba por ter um show-down final com quem o investiga. Juntam-se num beco as três séries para ver qual vai ter jurisdição no episódio, e vão instigando como se estivessem a assistir a um combate de boxe. Num canto, os advogados pedem, com palavras caras, um murro que possam acrescentar à acusação de corrupção. Noutro canto, os polícias querem ver o investigador no chão com ataques justificados para ele acabar com a parvoíce e deixar a polícia trabalhar respeitosamente. No último canto, os agentes federais esperam calmamente por algo que justifique a investigação.
    Todos são defraudados, porque o Bom principal é mesmo muito bom e mostra uma prova nunca antes vista que o iliba de tudo. Sim, o email foi mesmo apagado, mas com uma boa razão e um propósito que ninguém percebeu. Com sorte, até desvenda uma conspiração de larga escala e acaba com o crime na cidade inteira. Até à semana seguinte, claro.
    No final, vão a um bar para repensar a situação e dizer piadas sobre os chefes, que se juntam a eles de forma inesperada e amigável. Mas não todos juntos. Depende do ponto de vista: os advogados vão para um rooftop, os polícias para um pub irlandês, e os agentes federais para um bar mais fino.

04 fevereiro, 2021

Pantagruel

    João entrou no quarto e sentiu uma pancada na cabeça, mas ao levar a mão ao local da pancada, não sentiu nada. Estranho, pensou, e não se preocupou mais.
    – Finalmente chegaste.
    Estava um homem sentado na cadeira do quarto. Não era suposto estar ali ninguém, muito menos aquele homem.
    – Tio André? Como estás aqui?
    – Passo muito tempo aqui, este era o meu quarto, sabias?
    – Mas morreste há 20 anos!
    – Ah, sim. Agora sou o que normalmente se chama de fantasma.
    – Mas... Porque te estou a ver?
    – Porque te juntaste a mim. Uma manobra genial da minha parte, devo dizer. Equilibrei um livro no topo da porta para te cair em cima quando entrasses. Funcionou que foi uma maravilha.
    João olhou para trás e viu o seu corpo deitado no chão com um livro ao lado da cabeça.
    – Mataste-me??
    – Acho que não. Pelo menos, ainda não, ainda estás a respirar. É só esperar um bocadinho.
    – Como conseguiste ir buscar um livro? E logo o pantagruel!
    – Precisava de um livro pesado. Nunca reparaste que as coisas nem sempre estão onde as deixaste? Sou eu. Bem, eu e os outros, mas principalmente, eu. E achei que seria uma boa mensagem, se não resultasse. Já tens 25 anos, devias saber cozinhar.
    – Mas porquê?
    – Preciso de companhia. Há outros fantasmas, mas nada substitui a família. Assim, podemos ficar aqui os dois.
    – Ficar aqui? Só podes ficar onde morreste? Pensei que um fantasma poderia andar por onde quisesse.
    – Ah, isso sim. Já andei a passear por quase todo o lado. Acabo sempre por voltar aqui, é tipo a minha casa-mãe. Eu e o teu pai crescemos aqui, sabes, e este era o meu quarto. Passo a maior parte do tempo aqui, na verdade.
    – OK. Espera, a maior parte, tipo quê? Estavas aqui quando trouxe raparigas cá a casa?
    – Raparigas, plural? Não te armes em galã, foi só uma.
    – Então estavas aqui!
    – Normalmente, ia embora para terem privacidade.
    – Normalmente??
    – Para ser sincero, fiquei surpreendido por conseguires trazer cá uma rapariga. Quis só confirmar que era mesmo a sério. Com o teu historial, o mais provável era ser uma colega de estudo.
    – Não tenho historial nenhum!
    – Pudera! Uma pessoa entra aqui e só vê bandas desenhadas de super-heróis e ficção científica, bonecos de jogos de vídeo e de filmes. Andas para aqui a anerdalhar à força toda! Não me espantava que ela fugisse logo.
    – São artigos de colecção. Na verdade, são coisas valiosas e que talvez dêem dinheiro mais para a frente.
    – Vê lá se não te caem os óculos, totó.
    – Pára com isso! Há coleccionadores com autênticas fortunas. Até valem mais que a colecção de selos da avó.
    – De um selo precisas tu.
    Nisto, a porta de casa abre-se e a mãe de João entra. Vê-o deitado, e corre para ele.
    – João? Acorda, filho! – E dá-lhe um estalo.
    No momento do estalo, João desapareceu e voltou logo de seguida.
    – Que raio!?
    – É porque estavas a acordar, a tua versão fantasma desaparece. Hei-de te levar a um hospital, nas urgências parece que estamos numa rave. É bestial.
    Outro estalo, e João volta a piscar. A mãe agarra-o pelos ombros e sacode-o, e João fica intermitente.
    – AAAAH! Isto é horrível!
    – É, não é uma sensação agradável. Mas não te preocupes, mais um bocadinho e ficas definitivamente lá, ou cá. Reza para que a tua mãe não te dê daqueles estalos com a mão puxada bem cá de trás.
    – Rezar ajuda??
    – Isso é uma pergunta interessante, porque...
    E João acordou.
    – Mãe! O tio André está aqui!
    – Que bonito dizeres isso, filho. Sim, sempre que pensarmos nele, ele está connosco, graças a deus. Mas olha, já não tens idade para andares a dormir no chão a meio do dia. Vá lá, fico contente que finalmente queiras aprender a cozinhar.

08 janeiro, 2021

Natal em tempos de corona

    Este ano, o natal foi muito diferente. Aconteceu algo que nunca tinha acontecido antes. Tive de comprar meias para mim próprio. Eu sei, nem eu, nem o amigo leitor, nem o agente do FBI que está a ler isto, imaginámos que tal calamidade iria acontecer. Mas aconteceu mesmo.
    E isto, porquê? Por não podermos ir à terrinha. Ninguém nos ofereceu meias. E lá fui eu, cumprir a tradição mais natalícia de todas. Não sei onde os meus familiares compram meias, mas as que eu comprei são uma desgraça. Não há qualidade no tecido, cor que combine com o resto da roupa, ou padrões interessantes. Claramente, não tenho jeito para isto. É importante que para o ano possamos passar o natal em família. Por ouro lado, ter os primos afastados, de facto, afastados foi um sossego... É preciso rever no próximo natal.
    Já da passagem de ano confinada, não tenho queixas. Muito mais agradável, sem ter de ficar mais 2 horas numa festa que já devia ter acabado, ou ter alguém a insistir que se comam as passas, quando ninguém gosta de passas. Também foi bom fazer um jantar normal em vez de uma comezaina desmesurada. Esta parte é culpa minha, não sou muito de me conter com comida. Mas, este ano, ninguém veio com aquelas balelas do “podia ser uma resolução de ano novo e tal”. Não a ia fazer, e este ano tive a vantagem de não ter de a ouvir.
    Foi pena perder a oportunidade de conseguir descobrir amigos perdidos nas festas. Com o distanciamento social, ia ser muito mais fácil. Pode ser que para o ano dê. E até lá, ainda consigo convencer os meus familiares a enviar meias por correio.

14 dezembro, 2020

Chaves na mão

    Chaves na mão. Uma expressão que se tornou tão corrente que já não nos espanta quando a vemos, mas que nos indica logo que algo nos vai ser entregue na hora. Seja para carros ou casas, sabemos que vamos sair de lá com uma coisa que nos pertence. Mas o assunto é outro.
    As chaves na mão são um hábito de férias, nomeadamente de visitas. Eu passo férias numa aldeia, onde a minha família inteira sempre passou férias. Os que não o são, são conhecidos há tanto tempo que já contam como tal. Estas pessoas todas visitam-se umas às outras, para saber e contar novidades, ou ver as crianças que “iiiiiih, já estão tão grandes”.
    Tudo isto acontece com chaves na mão, porque se vai andar pelas casas todas, ou é só para contar uma coisa. Em geral, isto acaba por não ser verdade, porque as nossas visitas estão sempre de passagem, mas ficam várias horas. Com chaves na mão.
    Para mim, que sou aquele primo estranho que fica sentado sem falar e responde com monossílabos, isto é interessante. Gosto de observar e ouvir as pessoas, ver os gestos que fazem e as expressões que usam. Divirto-me com isto. É meio parvo, eu sei, mas o meu Mr. Burns é quase tão bom como o original. Na verdade, nem sempre presto atenção ao conteúdo da conversa e, às vezes, as visitas saem sem eu saber o que aconteceu. E depois faço perguntas como “a prima morreu? Quando souberam isso?” Voltando ao assunto. Acabei por reparar em alguns trejeitos que as visitas partilham: agitar as chaves enquanto se fala, brincar com os porta-chaves, ou brincar com as chaves.
    Agitar as chaves acrescenta sempre qualquer coisa ao assunto. Mexer os braços é expressivo, mas fazê-lo com banda sonora ainda o é mais. A indústria do cinema vive disso. Mais, há sempre a hipótese de apanhar um bocadinho de luz e temos uma bola de espelhos instantânea. Afinal, estamos de férias, há que curtir. Brincar com o porta-chaves é um pouco mais simples, se for uma fita, passar a mão pela fita de uma ponta à outra e recomeçar, se for algo mais sólido, agitar ao de leve e deixar pronto para ir embora, para depois voltar a agitar. Normalmente, estes movimentos só são interrompidos por notícias bombásticas.
    Brincar com as chaves é mais interactivo, porque dá para tentar descobrir padrões nos movimentos e tentar prever o que vem a seguir. Também é frustrante, porque nem sempre acontece o que conseguimos prever através de extensas observações. Por exemplo, quando a visita tem três chaves e está só a brincar com duas. A costela obsessiva começa logo a dar sinal de vida. “Porque é que a terceira não foi? É melhor recomeçar. Outra vez?! Faz a terceira! EH PÁ!” e depois é preciso pensar noutra coisa qualquer para acalmar, mudar o foco da atenção. Perguntar pela prima. “Bem... A prima morreu...”

30 novembro, 2020

Falemos de horas

    Horas. Aquilo que nos diz que não podemos dormir mais, que já devíamos ter começado a estudar, ou que estamos atrasados para o trabalho. Não no meu caso, estou desempregado e já acabei de estudar há algum tempo. Mas enquanto estudei e trabalhei, sofri com estes problemas. Claro que “problemas” é uma palavra muito forte para o que referi. O verdadeiro problema é como as horas são ditas.
    Todos os relógios digitais que usei tinham a apresentação em 24 horas, mas sempre li as horas da uma às onze, e depois ou era meio-dia ou meia-noite e tal. Contudo, a convivência com outras pessoas mostrou-me que nem todos fazem o mesmo. Perfeitamente natural. Pode até ser importante dizer as horas de 1 a 24. Para viajar de avião é essencial, é extremamente desagradável chegar ao aeroporto às duas da tarde e descobrir que o voo saiu às duas da manhã. Ou pior, chegar às duas da manhã e ver que afinal é preciso esperar doze horas.
    A CP tem o mesmo sistema. Uma vez testemunhei uma compra de um bilhete por um amigo que estava de férias em minha casa e que queria ir no comboio das quatro e dez, ao que o senhor da bilheteira respondeu que não havia comboios a essa hora. Nós mostrámos o horário onde tínhamos visto o comboio e o senhor responde “ah, o das dezasseis e dez. Sim, sim, ainda tem lugar”. Isto é um misto de preciosismo necessário e de parvoíce. Faltava um quarto de hora para o comboio passar e era óbvio que ninguém queria comprar um bilhete para as quatro da manhã a meio da tarde. Noutra situação, este preciosismo seria importante, sem dúvida. Aqui, não.
    Isto é aceitável, até recomendável. Mas há um outro tipo de pessoas, que se referem sempre pelas 24 horas. Por exemplo, para ver futebol. A conversa habitual segue esta linha:
     – Queres ver o jogo amanhã?
     – Claro. É às seis e vinte, não é?
     – Sim, deve começar por volta das dezoito e vinte.
    É preciso? Não. Se houvesse jogo às seis da manhã, nem os jogadores iam. Com a Liga dos Campeões, é o mesmo, mas é às dezanove e quarenta e cinco. Um quarto para as oito, pá! O pior de tudo é ainda haver a correcção do que eu disse, não vá eu confundir-me e tocar à campainha de madrugada. E isso nunca irá acontecer, os meus amigos sabem perfeitamente que já acabei de estudar e não trabalho, portanto, de madrugada não vou estar acordado.