20 abril, 2025

O rei morreu. Felizmente, estou cá eu

    De vez em quando, morre gente. É natural, e toda a gente tem tendência para o fazer pelo menos uma vez na vida. Mas às vezes, morre gente famosa, e isso é muito chato. Chato por morrer alguém, claro, mas também chato pelos que ficam. Não para os que ficam, isso é só quando morre alguém próximo. É mesmo pelos que ficam.
    As pessoas famosas têm colegas de profissão, igualmente famosos, e pessoas que tentam ser colegas e famosas. Nesta era das redes sociais, isso é uma grande chatice. Lemos a notícia, e têm logo vários links para posts de outras pessoas a lamentar a partida do defunto, metendo pelo meio uma certa e determinada autopromoção. Quantas vezes vimos já textos tipo: morreu fulano tal, uma grande perda. Nunca me vou esquecer daquele dia em que me cruzei com ele, completamente por acaso, no café onde ia todas as manhãs, e me disse “tu vais ser o futuro do romance histórico no país, aguenta-te firme que as pessoas vão perceber”. Verídico? Possível. Apropriado? Discutível.
    Ou: morreu fulano tal, a música nunca mais será a mesma. Apesar de já não fazer nada de novo há 20 anos, disse-me uma vez que eu era o herdeiro do espírito criativo e de ruptura com a norma que o trouxe para os grandes palcos nos anos 1980.
    As televisões e a rádio também têm alguma culpa. Também gostam de telefonar a famosos aleatórios a perguntar o que achavam do morto, e é sempre na linha do “gostava muito dele, e ele de mim, costumava enviar-lhe as minhas coisas novas e ele respondia sempre que tinha gostado muito, era um grande admirador da minha obra”.
    A questão é que é para falar da outra pessoa. Se a pessoa é famosa, basta ir à net e escrever o nome, nem é preciso inventar nada. Recomendo a estandardização: os telejornais escrevem um texto do tipo “acabei de saber e fiquei triste, fez excelentes contributos na sua área, vou ter saudades”. E pronto. Se for assim curtinho, podem ter montes de gente a dizer que ficou triste, não se perde tempo com desvios de conversa.

20 março, 2025

A par e já passou

    Actualmente, vivemos numa época de rápidas mudanças. Tudo dura pouco tempo, e é preciso haver estímulos novos a intervalos de tempo muito curtos. Aqui, tento falar sobre alguma coisa que me chame a atenção, porque nem sempre estas coisas acontecem na altura em que escrevo. Além disso, quase ninguém lê este blog (olá, Tiago), até parece que vai fazer diferença.
    No ramo da política, esta rapidez é mais ou menos o mesmo que levantar poeira para não se ver o que se passa. Não há muito tempo, estava-se a falar de roubos no aeroporto e outras coisas com aplicações de telemóvel, e estava a correr mal para algumas pessoas. Essas pessoas ripostaram com um ataque ao governo, amplamente criticado por ser uma manobra de distracção, e que não iria resultar. E, entretanto, o que aconteceu aos casos deles? Também não sei, mas, ao que parece, já não interessa.
    Do outro lado do charco, há gente a disparar e a fazer bullying para todo o lado, principalmente para amigos (jogada estranha…), mas são tantas ao mesmo tempo que não dá para seguir todas. Imagino que seja parte do plano, como podemos saber o que aconteceu com a questão das pescas se já temos de nos preocupar urgentemente com as energias renováveis? E isto vindo de pessoas que são anti-renováveis e que agora são os maiores apoiantes de carros eléctricos… Já da democracia e soberania de outros países (e em geral), não tanto.
    Com isto tudo, ainda faltam as tendências nas redes sociais, que não tenho. Como posso acompanhar os desafios do momento? Não dá, até porque nem sei onde os procurar, e quando oiço falar neles, já há um novo. O “that’s so last year” tornou-se no “that’s so last week”, e não tenho capacidade para estar a par. Felizmente, há rubricas como o “Extremamente Desagradável” e a sua cara-metade da tarde (pun intended) “Seja o Que Deus Quiser” para nos trazer os disparates mais relevantes. Que por sua vez, me fazem ter menos vontade de tentar estar a par do que se passa nas redes sociais, por mais divertidos que sejam, e são muito. Na volta, é melhor ter só atenção e ver se as malas estão bem identificadas. Jogar pelo seguro.

20 fevereiro, 2025

A Doença

    Recentemente, estive doente. Nada de mais, não é uma coisa que aconteça muitas vezes, mas acontece, como a toda a gente. No entanto, sou homem, portanto, achei que ia morrer.
    Foi tão grave que tive de pedir uma tarde sem trabalhar na empresa. Achei que era melhor seguir os conselhos dos médicos de antigamente e repousar. Se dantes era assim, fosse febre, uma perna partida, dar à luz, ou stress, a prescrição era repousar, porque não seguir os ensinamentos dos nossos antepassados? E foi o que fiz, deitei-me depois do almoço, que não comi, e acordei às 8 da manhã do dia seguinte. Devo ter repousado umas 18 horas, com intervalos curtos para ir à casa de banho e beber água.
    Não posso dizer que tenha visto a luz, a sinusite era tal que mal conseguia abrir os olhos. Ainda assim, num delírio a meio da noite, acordei preocupado por nunca ter feito um testamento. Acabou por não ser importante, porque a única coisa que deixo aos meus pais é o quarto vago.

20 dezembro, 2024

Norte, Sul, Este e Aquele

    Falar e escrever são coisas diferentes. Em geral, escrever é mais formal. Esta formalidade é normalmente usada em artigos de jornais ou posts nas redes sociais. Por exemplo, esta última frase seria “é normalmente utilizada em artigos”. Dá logo outro ar, parece mais erudito. Um mecânico que usa uma ferramenta é um bruto, mas se utilizar a ferramenta, já sabe o que está a fazer.
    E, por isso, vemos artigos todos apinocados na internet. Na minha opinião, é mais chato (o word sugere que troque “chato” por “maçador”... também é do sistema), porque quando leio fico preso nas palavras que lá estão a abrilhantar o artigo, e acabo por me esquecer de qual é o assunto do artigo. É habitual ver aquele toque de trabalho de grupo da faculdade de usar “estes” para fingir que não se está a repetir muitas vezes a mesma coisa. Quando se está a fazer testes de esforço e se fala dos participantes, é frequente usar “estes” para descrever os participantes ou testes na frase seguinte para não estar a duplicar. Ou pior, escrever “os mesmos”. A diferença é que nos jornais são grupos de cidadãos ou associações a fazer protestos ou comunicações.
    O formalismo que mais me incomoda é o da enumeração com exemplos. Muitas vezes há artigos em que se fala de uma indústria ou economia emergente, descrita como estando a ultrapassar as mais fortes “como EUA, China ou Alemanha”. Ou? Como ou? Não sabem qual delas é? Estas coisas são medidas em números, é só ver se é quantidade ou percentagem, e comparar com as outras. Se calhar é só para facilitar, tipo “eh pá, mete aí umas das grandes, ninguém se interessa o suficiente para ir ver”.
    No jornalismo desportivo então, este exemplo está em todo o lado. “O jogador tal anunciou o ponto final na carreira, que o viu passar por clubes como Benfica, Porto, Sporting ou Braga”. Lá está, não é difícil descobrir por onde andou. Os treinadores também têm extensas carreiras por países como Portugal, Espanha, Inglaterra ou Itália. É que ainda por cima, agora faz-se tudo no computador, é só ir à net ver esta informação. Podem consultar sites como zerozero, playmaker ou wikipedia.

20 novembro, 2024

Com a verdade me enganas

    De vez em quando, gosto de ler biografias. Acho interessante ver o percurso que as pessoas fizeram para chegar onde chegaram, como o fizeram e porquê. Infelizmente, mais tarde, acabo por cair no erro de ver um filme biográfico sobre essas pessoas.
    O início do filme mostra sempre uma origem humilde e difícil. Na faculdade, apesar de ter crescido numa família de políticos, o nosso protagonista descobre o activismo político totalmente por acaso num encontro inesperado. Normalmente vai contra as ideias da sua família e há sempre grandes discussões. Também é contra a violência do grupo a que se junta, e não participa nos seus actos de vandalismo, excepto se tiver sido obrigado, que lhe trazem grandes chatices mas fortalecem o carácter. Ao longo do tempo, os colegas vêem-no como um líder silencioso e sensato, e tem de aceitar, relutantemente, ser escolhido para dirigir o grupo, que mais tarde o vai levar a um cargo público de grande visibilidade e ser aclamado como um herói, mas um herói relutante, porque isso lhe dá clareza e sentido de responsabilidade.
    Na realidade, este protagonista nasceu numa das grandes famílias políticas ou empresariais do século XX, em que todos os familiares estavam na política. Não entrou na política por acaso, nem teve discussões na família, porque todos concordavam com o mesmo. Assim até foi mais fácil, porque era só orientar e limar arestas. Os problemas de vandalismo foram silenciosamente resolvidos por telefonemas, não fosse manchar a reputação da família, e foi também um dos mais vocais e activos membros do grupo a que se juntou, subindo gradualmente até chegar à liderança.
    Nos filmes, as diferenças entre protagonistas acabam por ser só geográficas. Se nasceu no Ocidente, é uma excelente pessoa, já no Oriente, é um terrível ditador. Quando é preciso matar pessoas à fome e favorecer alguns a custo de muitos, fá-lo a chorar ou a rir-se maldosamente, dependendo do hemisfério. Fico sempre a pensar no xarope que nos tentam dar, porque olhando com alguma distância, a propaganda é a mesma, mas só é aceitável de um dos lados. Paralelamente, de um lado há corrupção por todo o lado, e do outro não, porque se chama lobby. É uma questão de perspectiva.
    Chegamos ao fim do filme a pensar que gostámos mais do livro, apesar de o filme ser mais divertido. Mas com uma sensação estranha.

20 outubro, 2024

Férias compulsivas

    Quem trabalha tem, de vez em quando, vontade de tirar umas férias. Ou, pelo menos, eu tenho. Infelizmente, nem sempre dá para o fazer quando me apetece, o que me faz procurar alternativas. Ligar a dizer que estou doente já não pega, porque posso trabalhar de casa na mesma.
    No entanto… se calhar o caminho da saúde é o mais seguro. Está aí a chegar a altura de voltar à consulta de medicina do trabalho, e talvez dê para conseguir sair de lá com a avaliação “não apto”, e ter de fazer uma pausa até voltar a estar apto. O verdadeiro problema é não saber os parâmetros para conseguir essa avaliação. Dores de cabeça regulares? Na volta, precisas de óculos – apto! Dificuldade a deslocar-se? Canadianas ou, se for mais grave, cadeira de rodas ou teletrabalho permanente – apto! Caiu-me um braço? Irreal – apto!
    Acho que a única forma é fingir que tenho um amigo imaginário e levá-lo comigo à consulta. Entro no consultório e puxo duas cadeiras, “sôtôr, aqui o Vítor quis vir comigo porque diz que não pergunto tudo o que devia”, e aponto para o lado. Depois, posso reagir a qualquer recomendação do médico olhando para a cadeira vazia e dizendo, “pois, era o que tinhas dito” ou “eu não disse que não era nada?” Para ter uma base sólida, posso começar a apresentar o Vítor aleatoriamente a colegas no escritório antes da consulta, assim se o médico telefonar a perguntar alguém lhe diz que, de facto, tenho um amigo imaginário. O truque é conseguir manter num nível leve, porque gostava de continuar a trabalhar depois das fér… período de baixa médica.
    O Vítor acha que vale a pena arriscar.