20 maio, 2023
20 abril, 2023
O Maravilhoso Mundo do Esquema
Um esquema pode ter dois significados: tanto pode ser uma ilustração para mostrar como funciona uma turbina, como uma forma de dar a volta a coisas incómodas, em especial, leis. Não tenho nada contra os desenhos, mas não sou fã dos outros esquemas. Infelizmente, muitas pessoas se aproveitam de esquemas, sendo que apenas eu e o amigo leitor somos pessoas honestas, e acabamos por ser vítimas. Ou participantes relutantes, quando não há outra opção.
De toda a gama de esquemas, acho que os mais interessantes são os do ramo automóvel, que, em geral, são formas de não dar dinheiro a “Eles”. Por exemplo, são Eles que andam de olho nos parquímetros, mas há um esquema para isso. Já tive situações em que me deram boleia e ao estacionar perguntei se queriam dinheiro para o parquímetro, e tive a resposta:
– Não é preciso, porque vamos só ali e, além disso, há uma lei que diz que só se pode estar estacionado sem pagar durante 15 minutos, e outra que diz 1 hora, portanto, podemos contestar com esta zona cinzenta.
Ninguém sabe que leis são essas, mas esta pessoa estava com clara confiança que eram uma opção mais segura do que pagar 25 cêntimos. Também não aprofundei a questão, visto que a multa não viria ter comigo, mas Eles não passaram ali naquela altura.
Outro esquema engraçado é com radares de velocidade. Digo engraçado, mas na verdade é só parvo. Uma vez, em viagem, um amigo disse-me para abrandar perto do radar do Eixo N/S antes do Aqueduto, para poder olhar para o radar. Quando passámos, disse, com orgulho, que podíamos ter passado à vontade, porque o radar estava desligado, e que havia uma forma fácil de saber. É só olhar para lá, porque, quando está desligado, não tem o vidrinho de onde tiram as fotografias, o que significa que a máquina não está lá. Vendo bem isto, há dois pontos a relevar: primeiro, Eles vão até uma zona de difícil acesso para tirar uma máquina de vez em quando; segundo, é preciso passar abaixo do limite na mesma, porque só se pode saber que não estava lá depois de o passar. Portanto, parvo.
O melhor de todos é, sem dúvida, o esquema de compras. Porquê ir a um stand próximo, quando um amigo conhece uma pessoa que consegue fazer um negócio melhor noutro stand? A única desvantagem é ter de ir buscar o carro a Trás-os-Montes, mas é um bom passeio. Neste esquema, estamos nós, o conhecido, e o stand do conhecido, todos com o intuito de fazer a transacção a um preço mais vantajoso. Resta saber para quem, porque nós pagamos menos, mas estará o stand realmente interessado em vender um carro novinho em folha por menos? Se acharmos que ninguém saiu prejudicado, o mais provável é não terem sido Eles...
31 março, 2023
Pinhal
Recentemente, tenho sentido uma enorme vontade de rever Gato Fedorento. Só não o tenho feito porque, de uma forma nada obsessiva, não consigo encontrar um sítio que venda a série Barbosa, a única que me falta. Portanto, em vez de me estar a divertir, ando a perder horas na net a tentar resolver este mistério. Mas, no mundo real, a Rádio Renascença esteve esta semana a comemorar os 20 anos do grupo, com entrevistas a cada um dos elementos e recriação de sketches, semana que, não há volta a dar, será escolhida como o ponto alto do ano.
Não tenho palavras para descrever o quanto adoro Gato Fedorento e o que significa para mim. A primeira vez que vi foi em casa de um amigo, que tinha gravado um programa em cassete, e o primeiro sketch foi o do “Refilofone”, que é o meu favorito desde esse dia. Há outros mais icónicos, mas este vai ser sempre especial para mim e, aliás, é de onde vem o nome deste blog. Gato Fedorento entrou na minha vida de tal forma, que (como qualquer pessoa normal) passei a usar expressões deles todos os dias com os meus amigos. A mais frequente é dizer “uma destas” quando dou um aperto de mão a alguém, retirado do sketch da “Taxa de Bazófia”. Como tenho boa memória para estas coisas, 10 anos mais tarde, com o mesmo amigo que me mostrou o “Refilofone”, estivemos dois dias inteiros a comunicar um com o outro só com frases de Gato Fedorento, até a irmã dele se fartar. Quando não estamos a irritar irmãs, passamos o dia a dizer “senhor Vítor?”, “tirar o pai da forca”, “fazem cá falta os castigadores da parvoíce”, “nada, nada”, e “nesta casa, não há ursos”. A minha memória também me fez passar uma vergonha à frente deles quando, no lançamento do DVD da Série Fonseca na Fnac do Colombo, estava na fila dos autógrafos e disse que a seguir ao ”Homem a quem parece que aconteceu não sei o quê” vem o sketch da “Claque de seminaristas”. O RAP ouviu isto e disse “quem é que disse isso? Pessoal, este gajo sabe a ordem dos sketches!”. Venham vergonhas destas todos os dias.
Gato Fedorento foi o que me fez inscrever num curso de escrita humorística (onde fui, em modo de brincadeira, insultado por dizer que os via na adolescência, porque isso fazia com que fosse mais novo que os meus colegas todos), e que mais tarde deu origem a este blog, com uma mistura de humor observacional e infantilidade. Não conto que este texto chegue a algum deles, nem é esse o seu objectivo, principalmente, porque eu sou um dos três leitores do blog. Quero apenas deixar o meu agradecimento pelo que os quatro Gatos fizeram, e desejar que o continuem a fazer por muito mais tempo.
Para o Ricardo, para o Zé Diogo, para o Miguel, para o Tiago (não os conheço, mas tratar pelo primeiro nome indica familiaridade), uma destas para vocês.
20 março, 2023
Eles comem tudo
Eles andam por todo o lado. Ninguém sabe bem quem Eles são, só se sabe que andam aí, especialmente, onde há dinheiro. No fundo, ou Eles são os melhores intermediários de sempre, ou uma rede de crime organizado, com uma vasta área de actuação.
Por exemplo, Eles têm excelentes competências informáticas. As melhores aplicações que temos nos telefones são práticas e rapidamente se tornam indispensáveis, por terem acesso a montes de coisas, sem custos. Mas isso é só de início, porque depois Eles vão passar a cobrar. Nos intervalos em que as aplicações ainda não dão dinheiro, é preciso fazer biscates, e, nessas alturas, Eles viram-se para o trânsito. Andam sempre na caça à multa, não se pode andar a 65 km/h na Avenida dos Combatentes sem Eles porem lá um radar para nos apanhar. E quando paramos o carro para ir só ali levantar dinheiro e beber um café, tumba, multa por não ter posto parquímetro. O timing é tudo, de facto. Foram só 5 minutos, caramba.
Também são exímios no controlo económico. Quando pensamos em investir em alguma coisa, Eles, lá nos mercados, aumentam o preço, para nos forçar a pagar mais, e depois descem outra vez, para nos assustarmos e vendermos com prejuízo. E depois, chegamos ao banco e vemos que Eles aumentaram as taxas de juro para compensar o risco (ou só porque sim). A juntar a isto, também são Eles que escrevem leis que nos obrigam a registar tudo e a ter tudo em ordem.
Se pensarmos que Eles também controlam o preço da electricidade, água, e petróleo, vemos que são grandes empreendedores, com um largo portfólio em carteira. Estão protegidos por terem uma área de actuação tão grande, se uma falhar, há sempre uma rede de protecção. Isto é o que nos ensinam a fazer na faculdade para ter uma empresa de sucesso.
20 fevereiro, 2023
Até vi estrelas
Como qualquer pessoa normal, quando ouvi falar no C/2022 E3
(ZTF), o famoso cometa verde, quis saber como e quando o podia ver. E, como a
mesma pessoa normal, não faço ideia se o vi. Principalmente, porque o cometa
verde na verdade não é verde. Só é verde em frequências infravermelhas, e, com
os meus binóculos normais, só seria visto como uma luz branca. Infelizmente, no
dia em que se via melhor, estava na cidade, e no dia em que estive no campo,
não era fácil de o identificar. Portanto, vi uma data de luzes brancas, sem
saber qual delas seria o cometa. Mas sei o que não vi.
Seres alienígenas. Quando andava de nariz no ar à procura,
pensei que seria giro ver mais qualquer coisa surpreendente. E depois
lembrei-me que isso agora já não é tão frequente. Tirando os documentos
divulgados pelos EUA, que também não mostram nada muito visível, não se ouve
falar disso com a mesma frequência de antes. É uma tristeza, e um desperdício.
Agora que temos telemóveis e câmaras com cada vez melhor capacidade de imagem
há cada vez menos incidência destes casos. Nos tempos em que uma mancha numa
fotografia indicava visitantes de outro planeta, havia aos pontapés, e pessoas
eram raptadas a torto e a direito. Mas já não temos nada disso. Podemos tirar
selfies com qualidade incrível, e descobrir localizações só com base nessas
fotografias, mas ninguém as usa para apanhar alienígenas. Mesmo os raptos são
raros, e logo agora que tudo o que usamos tem GPS, era só ir ver o que
acontecia nessas alturas.
Na volta, os alienígenas perceberam que agora
conseguíamos ver melhor e andam mais quietos. Ou então é como no episódio do Futurama, onde dizem que o habitat
natural do Big Foot são zonas desfocadas. Entretanto, vou considerar investir
num telescópio. Nunca se sabe.
21 dezembro, 2022
Um dia na vida de um jornalista desportivo
Vítor acorda e prepara um café. Hoje, estará em
teletrabalho, e decide só tomar banho depois de despachar a caixa de correio.
Vê que tem um email do chefe de equipa com o título “template para
transferências”, e indica que, uma vez que o mercado de transferências está
quase a abrir e o mundial acabou, o foco da equipa deve ser criar sururu. Para
facilitar, fez upload de um template para a cloud, que todos podem usar à
vontade. Vítor vai buscar o documento, e abre-o no seu computador:
“[inserir nome do jogador] a caminho de [inserir país]?
Relatos oriundos de [inserir país], veiculados pelo [inserir jornal/website], dão conta de um
possível interesse do [inserir clube
interessado] em [inserir nome do
jogador]. O clube poderá avançar já para a compra, para evitar concorrência
dos tubarões europeus no próximo verão.
Por seu lado, o [inserir nome do jogador] já fez saber
junto dos seus representantes que vê com bons olhos uma mudança para [inserir país], e deu indicação para
descobrirem junto do clube qual a disponibilidade para negociar. O [inserir clube] não deverá querer perder
um jogador importante do onze, mas poderá querer capitalizar o seu bom momento
de forma no [inserir competição mais
recente], e assim abrir espaço no plantel para avançar para [inserir possível reforço].
Resta saber se o [inserir clube] aceitará negociar ou se
remete o [inserir clube interessado]
para a cláusula de rescisão.
*bónus por trocar países por
alcunhas (exemplo: terras de sua majestade, transalpinos, bávaros...)
*bónus por trocar o nome do
jogador por “ex-clube-português” (exemplo: ex-Benfica, ex-Porto,
ex-Sporting...)
*bónus por trocar o nome do
jogador pela posição em campo (exemplo: lateral, centro-campista, extremo...)”
Outro email dizia para ignorar até 2027 tudo o que fosse
relacionado com o facto de o organizador do mundial ter dito quem gostaria de
ver levantar a taça, e ser dono do clube onde essa pessoa joga.
Vítor vai tomar banho, satisfeito por ter 17 notícias
prontas para publicar.
21 novembro, 2022
Áonde estiveste?
Um flagelo maior que o acordo ortográfico assola a nossa
língua. Bom, mais estranho, vá. Mas é um flagelo na mesma. De há uns tempos
para cá, e geografia foi invadida por artigos definidos. Foi pouco depois da muito
real invasão russa da Ucrânia, e quando voltou a ser preciso estudar o mapa da
Europa para saber onde é o quê, e ver se está mesmo aqui ao lado ou se podemos
deixar a preocupação para mais tarde.
Mas é já aqui ao lado que o problema começa. Espanha agora diz-se
a Espanha. Dantes, íamos a Espanha, agora vamos à Espanha. Porquê? De onde veio
este “a” a mais? Não é só Espanha. Se formos a Paris, já não estamos em França,
estamos na França. Isabel II foi toda a vida rainha de Inglaterra, para morrer
como rainha da Inglaterra. A sul, houve mais uma troca de governo na Itália. Não
se pode ouvir notícias sem ter ali um “a” metido em todo o lado, e os
telejornais também ajudam. Até o primeiro-ministro diz que está a discutir com
a Espanha e com a França o traçado do gasoduto. Quando oiço isto até me dá um tique
no olho como o do Capitão Darling no Blackadder.
Não estou a tentar ser superior. Eu digo “mídia” quando falo
dos média e sei que não está certo. Quando desço a Avenida de Ceuta, estou em
“Alcântra”, mas sou o único, porque toda a gente está em Alcântara (ou na
Alcântara?). Só quero saber de onde vem a moda e o porquê de se ter generalizado
tão rapidamente. Há uns anos, começou a dizer-se “parecido a”, que não está
errado, em vez de “parecido com”, mas não foi tão difundido e pelo menos não é
um “deve de ser”. Será que foi para facilitar? Se calhar foi alguém que esteve de
férias e não soube como responder à pergunta “onde estiveste?”, e teve de
inventar qualquer coisa à pressão. “Olha, estive em… no… na… Espanha. Foi isso,
estive na Espanha e trouxe caramelos”. Na volta, quem o ouviu achou que era uma
forma erudita de falar e decidiu começar a usar. Depois, com as redes sociais,
já se sabe.
E nós, em que ficamos? A partir de agora é o Portugal? Já
não vivemos em Portugal, mas no Portugal? É importante saber, está aí o mundial
e é preciso saber se vamos ver um Portugal-Marrocos, ou um O Portugal - Os
Marrocos. E ainda vai ser preciso ir rever artigos e notícias antigas, porque
nós não ganhámos o Euro 2016 em França. O Portugal venceu a França na final, na
França.
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