19 maio, 2022

Linquedine

    Estou muito feliz por anunciar um novo cargo. A partir da próxima segunda-feira, vou começar a desempenhar funções de alimentação na mesa dos crescidos.
    É uma etapa nova que tem vindo a ser preparada nos últimos anos e sinto que este é o momento certo para a mudança. Sinto-me entusiasmado por poder usar talheres de metal e partilhar esta experiência com os meus novos colegas de refeição, @pai e @mãe. Volto também a encontrar o meu companheiro de longa data, @irmãomaisvelho, que no passado me incutiu o espírito de enfrentar desafios e me inspirou a procurar por estímulos novos.
    Trago na bagagem muitas horas de copos com dinossauros e colheres com cores, e chego a este novo capítulo com grandes expectativas e confiança. É um orgulho poder fazer parte deste novo projecto.

#newjob #mesadoscrescidos #liveandlearn #growth

30 abril, 2022

The importance of being idle

    Excelente música dos Oasis. E, tal como a personagem da letra, também sou fã de deixar para amanhã o que não me apetece fazer hoje. Mesmo coisas que se despacham depressa, gosto de juntar para fazer todas de uma vez. Não vale a pena fazer uma coisinha agora se vai aparecer outra amanhã de manhã.  No entanto, há uma actividade que deixo sempre para aquele amanhã que nunca chega, mas pela qual sou regularmente interpelado.
    Quando entrei no emprego em que estou, fui ao escritório conhecer alguns dos colegas novos e o primeiro, depois dos clássicos “de onde vens?”, “onde estudaste?”, e por aí fora, sai-se com um “corres?” Basta olhar para mim para saber a resposta, mas esta pergunta é uma constante na minha vida, e nunca percebi porquê. Em todos os empregos que tive me perguntaram isso, e depois tive de levar a doutrina da corrida em duas fases: a primeira só ao de leve, porque acabámos de nos conhecer, a segunda já mais intensa, para ver se entro no culto. É preciso muita força para conseguir fugir, porque esta gente não aceita um não como resposta.
    Para mim, é fácil arranjar razões para não ir correr, mas para eles é ainda mais fácil dar resposta. São os Federer’s da contra-argumentação. Acordar às 5 da manhã é horrível: vais ver que te habituas e depois até tens mais energia durante o dia. 0-15. Só tenho uma hora para almoçar e não dá tempo: podes correr 40 minutos. Tomar banho, trocar de roupa, e comer é muito fácil, se estiveres disposto a isso. 0-30. Ao fim do dia já estou cansado: com o tempo deixas de sentir isso e até vais sentir falta nos dias em que não correres. 0-40. E fecham o set com: é preciso gastar energia para ter energia. Espera lá, onde é que já ouvi esta? Ah, pois. É um esquema de pirâmide. Para além da tortura de ter que me forçar a fazer uma coisa que não gosto de fazer até gostar, na volta ainda tenho de arranjar 3 pessoas para criar uma rede e ganhar a energia deles. Nessa não me apanham outra vez.
    A nível pessoal, tenho dois amigos que correm, e um que pensa em começar mês sim mês não. Todos me perguntam se quero ir com eles, sabendo deste meu desagrado especial pela actividade, porque ir acompanhado é muito melhor. O mais estranho é eles conhecerem-se todos, mas quando sugiro que falem uns com os outros, afinal gostam é de correr sozinhos. E aí mando eu o smash: “então não era melhor ir acompanhado?” Game, Set, and Match.

22 março, 2022

Política laboral

    No ano passado, fui contratado. Assinei um contrato que dizia que iria colaborar com a empresa durante 6 meses, e depois, dependendo da minha performance, poderia ser renovado. Éramos vários para poucos lugares, portanto, no primeiro mês matei-me a trabalhar/colaborar, e a fazer horários de 10 horas por dia para mostrar o meu valor.
    Mas isto começou a pesar. Felizmente, foi na altura das eleições autárquicas e, enquanto ia a pé à escola onde voto e pensava no que fazer para sobreviver a 6 meses de colaboração tão intensa, reparei numa coisa estranha. Tinha atravessado a rua numa passadeira acabada de pintar, numa estrada com alcatrão novo. E pensei “será que se pode tirar daqui uma lição?” Claro. As juntas de freguesia e câmaras municipais fazem sempre mais coisas no final dos mandatos. Mas como aplicar isto na empresa?
    Bom, uma coisa já estava feita: tinha começado o mandato com muita actividade, já dava uma imagem de uma autarquia que quer mostrar serviço e que está activa e dinâmica. Portanto, estava na altura de acalmar. Reduzi a produtividade para o mínimo que me era pedido, mas comecei a apresentar sugestões de mudanças e melhorias que se podiam fazer no trabalho. Como é óbvio, as sugestões eram irreais, mas eu preferia chamar-lhes ambiciosas, e assim, quando se via que eram impossíveis de realizar, estávamos apenas limitados pela conjuntura. Ao mesmo tempo, insinuava que as ideias dos meus colegas ficavam aquém do que era preciso.
    Ali perto do último mês de contrato, voltei à carga em força. Tudo o que havia para fazer, ficou feito. Despachava o meu trabalho todo antes das 11 da manhã, e a partir daí fazia o trabalho dos meus colegas. Alcatroei todas as ruas do município, pintei passadeiras em todo o lado para estimular o tráfego pedonal, e arranjei os jardins todos. Foi um trabalho impecável, e deu resultados. Fui o primeiro a renovar contrato. Agora tenho tempo para planear o próximo mandato. Será que dá para organizar os estagiários numa espécie de Jota? Pode ser que dê jeito ter uma claque de apoio nas reuniões para aplaudir as minhas ideias.

24 fevereiro, 2022

Aquela outra refeição

    Portugal, como um bom país latino, passa uma grande parte do tempo à mesa. Faz parte da nossa cultura sentarmo-nos para almoçar às 2 da tarde e só sair depois das oito da noite. Parte desse tempo é passado a comer, mas a principal actividade é conversa.
    Conversa essa que vai do tradicional futebol à comparação entre qual partido político aldraba mais. No entanto, há um tema muito mais importante que estes, e que volta à mesa várias vezes, que é o tema da comida. Não a que está à nossa frente, essa leva só um “muito bom” ou “também costumo fazer este prato”. Estar a comer, especialmente em grupo, leva a um passeio nostálgico por todas as refeições anteriores na vida dos participantes. A memória sensorial é muito forte. Mesmo que não tenha nada a ver com o que se está a comer, o passeio começa quando alguém diz “isto faz-me lembrar uma vez que comi...” e segue por caminhos exóticos de refeições no sul de França, aldeias italianas desconhecidas, ou na Cruz Quebrada.
    E vão saltando ao caminho vários pratos, de grande variedade, de excelentes refeições passadas, que rapidamente deixam de estar relacionadas com o que se está a comer. Um almoço de peixe assado leva a pratos húngaros extravagantes, que levam a uma feijoada à transmontana. E aqui entra o tópico acessório das refeições passadas: “eu gosto, mas quando é bem feita”. Isto é um ponto importantíssimo, não vá alguém falar de feijoada ou de cozido à portuguesa sem ser logo avisado que tinha de estar bem feito. O que seria se alguém dissesse que gostava de lasanha, mas quando o molho branco está rançoso? Livrai-nos do mal!
    Nestes grupos, há sempre uma pessoa que sabe mais sobre culinária do que todos os outros. Conhece a comida dos quatro cantos do mundo, e como é feita. Se tivermos sorte, é também a pessoa que cozinha melhor. O pior é se esta pessoa nos convida para almoçar e depois diz “Como é verão, fiz qualquer coisa leve, o almoço é só saladas”. Nada contra as saladas, também fazem uma boa refeição, mas quando uma pessoa que cozinha bem convida para almoçar, quer-se algo mais. E que seja bem feito.

29 janeiro, 2022

A casa pronta e metida nos contentores

    Aventurei-me, recentemente, no mercado imobiliário. É uma experiência interessante. Por um lado, podemos ver casas, imaginar como faríamos a organização do espaço, afinar os pontos a que damos mais importância, e o que não queremos de todo. Por outro lado, os melhores apartamentos são gabinetes de contabilidade.
    É verdade, e desanimador. Já passei em vários gabinetes e saí de lá a pensar que devia ter feito uma proposta mais cedo, mesmo não tendo sequer sabido que aquele espaço existia. Um T3 com 85 metros quadrados, bem localizado, com vista para o rio, e um daqueles halls de entrada onde dá logo vontade de ficar sentado a ler confortavelmente, tem em cada divisão 3 ou 4 pessoas a calcular IVAs e pagamentos por conta, a processar vencimentos, e a arquivar os últimos 5 anos de toda a gente.
    No entanto, qualquer “magnífico apartamento” é um T0 com 25 metros quadrados, incluindo logradouro (que é mais fino do que um terraço e sobe logo 10 mil euros no preço), com uma cozinha americana, que imagino que seja só um microondas e lava-loiça, porque eles não cozinham, num 5º andar sem elevador. Normalmente custam os olhos da cara e a promessa de entregar o primeiro filho como caução, mas temos sempre a sorte de estar abaixo do valor de mercado da zona. É caro na mesma, mas é um achado fantástico, e temos de ser rápidos porque há muitos interessados. Depois é preciso pensar nas obras e lá se vai a sorte no preço. E o segundo filho. No final de tudo, já não era preciso um T3, e recomeça a demanda de encontrar uma casa mais pequena.
    Por isso, decidi ir por outro caminho. Comprei um terreno e arranjei uma casa feita com contentores no campo. Está na moda, é muito mais barato, e podemos moldar a casa como quisermos, sem as chatices que tem um apartamento na cidade (tipo vizinhos). Montámos uma casa bestial, com um quarto para cada, escritório, salas com bom espaço para poder entreter, uma cozinha a sério, e uma piscina cá fora, com um deck, que também está na moda. Estava tão boa, que no dia em que ficou pronta e nos mudámos para lá, o meu contabilista tinha montado o gabinete dele lá em casa. Até tem daqueles incentivos por estar a criar um negócio no campo. Portanto, a procura continua.

23 dezembro, 2021

Música e desporto: um estudo comparativo

    Ao longo do tempo, tive a sorte de estar envolvido na música e no desporto. Graças às minhas qualidades nas duas áreas, agora trabalho num escritório, a fingir que sei arquivar pastas. Quando alguém for lá abaixo, vai ter uma surpresa... Mas, voltando ao tema, notei que a música e o desporto têm alguns pontos em comum.
    Em ambos, há uma fase de preparação (ensaios na música, treinos no desporto), e o evento em si (concertos e jogos). Pode haver actuações suaves e tranquilas, como no snooker, ou barulhentas, como no rally. Pode ser a solo, como no ténis (se bem que não deve haver muitos músicos capazes de trocar de mão como o Roger Federer) ou na natação, como aqueles guitarristas virtuosos que tocam o mais rápido que conseguem, ou em banda, como os desportos colectivos. Aqui, podemos ter uma equipa de basquete em palco, capaz de reagir rapidamente a mudanças e adaptar o estilo de jogo e o caminho a seguir, ou uma equipa de futebol a tentar controlar o ritmo de jogo para marcar golo e ganhar.
    No entanto, há uma coisa que, na minha opinião, falha neste paralelo. Não há a fanfarra à volta do jogo, falta a conferência de antevisão do jogo, a flash interview, e a conferência pós-jogo. A flash interview é, sem dúvida, a mais importante, especialmente nos concertos em bares. É o calor do momento, acabou o concerto, um dos músicos desce de palco e tem logo um microfone na cara e um jornalista a fazer perguntas não relacionadas com o que acabou de acontecer. Acho que faz falta uma interacção como esta:
    “– Foi uma noite complicada?
    – Sabíamos o que tínhamos a fazer, trabalhámos a semana toda e estávamos preparados. Sabíamos que era preciso dominar logo a partir do primeiro minuto e captar a atenção do público para controlar a noite.
    – Ficou, então, com a sensação de missão cumprida.
    – Sim, nós sabíamos o que estava em jogo esta noite, os Almirantes tocaram aqui na semana passada e, portanto, tínhamos de fazer uma boa actuação para não perder andamento. Houve ali uma fase em que estava uma mesa distraída do lado esquerdo, mas o teclista esteve à altura e conseguiu sempre controlar, esteve bem e dou-lhe os parabéns.
    – Com esta afirmação, desmente as notícias que falam num desentendimento entre si e o teclista?
    – Não há desentendimento nenhum, somos colegas, temos as nossas opiniões, mas sabemos o que queremos e o que é melhor para o grupo. São coisas sem fundamento que aparecem na comunicação social.
    – E que diz sobre os rumores que indicam a sua possível saída para uma banda internacional?
    – Não há nada a dizer, tenho contrato com a banda, e o meu foco é no trabalho que temos para fazer. O futuro, ninguém conhece, mas estou focado no presente e no que é real, não em rumores.”
    Acho que isto é uma lacuna na nossa vida. Vou preparar um dossier para apresentar às editoras nacionais. Sem dúvida que é uma ideia milionária.

23 novembro, 2021

Transportar no tempo

    Há grandes mistérios nesta vida. Para mim, o maior é o das carrinhas transportadoras. Vemo-las todos os dias em todo o lado, com as duas portas, a caixa na parte de trás, quase todas brancas. Dão imenso jeito! Dá para levar estantes, caixotes, materiais, um montão de coisas, que são uma chatice de transportar num carro. Qualquer PME tem uma carrinha transportadora, nem que seja só para ter uma superfície grande o suficiente para escrever o nome.
    E aqui entra o mistério: não há carrinhas novas. É isto que me confunde. Todas as carrinhas que vemos pela rua fora são velhas. Não sei como é possível, mas é verdade. Já tive oportunidade de guiar duas carrinhas diferentes, e fiquei espantado. Principalmente, porque, para uma delas, deram-me a chave e disseram “leva a nova”. Nova, como? Só se for a matrícula, porque, de resto, eu era a única coisa nova naquela carrinha. A manete das mudanças estava solta, os plásticos eram todos velhos e vibravam por tudo e por nada, e o limpa pára-brisas só funcionava se ligasse o pisca primeiro. A embraiagem era estranha e os travões chiavam constantemente. O motor fazia um barulho horrível, daqueles que fazem pensar “se calhar era bom ir ao mecânico”, e estar parado no semáforo é ficar aos saltos como se estivéssemos no mar alto. No entanto, a matrícula era de 2018.
    O que me faz pensar noutra coisa. Quando é que as carrinhas são vendidas? Há anúncios na televisão regularmente, mas as carrinhas são sempre velhas. Como será que funciona? Fazem as carrinhas, mas só as vendem 5 anos depois, para ter uma matrícula mais recente? Ou vendem as carrinhas e esperam 5 anos para as entregar? Pode ser bom para efeitos contabilísticos. Se calhar, são as PMEs que as compram e as guardam durante 5 anos. Deve ser para amortizarem o valor, apesar de ninguém saber o que isso quer dizer. Na volta, são os contabilistas que mandam nisto tudo. A carrinha fica quieta, para não se estragar. Quando o valor total estiver amortizado, já pode ir para a estrada. Se alguém se espetar num poste, já não se perde grande coisa. Era só uma carrinha velha e a nova foi comprada há 3 anos, está quase pronta a usar.