20 março, 2024

De [que estás] a falar?

    Nos últimos tempos, tenho [estado] mais atento a notícias nos jornais online. Só para ter uma ideia se vamos todos [para a] frente leste, nada de mais. Reparei que agora há mais artigos com citações que [usam] parêntesis rectos para, de certa forma, “compor” a citação. Assim, a frase “isso é uma situação preocupante” torna-se “[a anexação ilegal] é uma situação preocupante”, que é muito mais fácil de perceber.
    No entanto, há citações [que não] fazem sentido sem o que é corrigido, o que me [deixa] curioso por saber como era a frase real, ao ponto de parar de ler o artigo e fazer suposições. Sem ser obsessivo, [claro]. Mas quando leio frases como “também [tenho] um, mas não uso”, a real questão é o que está o “tenho” a substituir? E “quando chegar a ocasião, [conto] estar presente”? O “conto” era um “vou”? “Estou a pensar”? E não podiam estar lá? Às tantas, já nem sei [o que estou] a ler, só quero descobrir o que lá podia estar. Algumas puxam [mais pela] curiosidade, porque parecem estar em pontos aleatórios nas frases.
    O que me fez pensar: será que dá para escrever um artigo que só faça sentido com parêntesis rectos?

20 fevereiro, 2024

Dia dos namorados

    Estamos na altura do dia dos namorados. Com toda esta animação, faz falta relevar um ponto de vista muitas vezes ignorado.
    O nome é dia dos namorados, mas na verdade é mais o dia das namoradas. Neste dia, o namorado planeia um dia especial, com um jantar especial, uma prenda especial, um passeio especial, uma noite especial, tudo especial, para a namorada. Se não fizer, incorre na sua fúria, e depois tem de se redimir e compensar o erro.
    Tudo isto, num dia escolhido aleatoriamente. Na verdade, não é aleatório, é relacionado com a morte do mártir São Valentim que, além de ser associado ao amor, é também o santo padroeiro da cidade de Terni em Itália, da epilepsia, e dos apicultores. Um santo muito ecléctico. Mas o que interessa, é que este dia é o escolhido para mostrar o quanto se gosta da nossa cara-metade. E o resto do ano? Não conta? Basta garantir que se arrumam as compras e não se ressona?
    Não sou grande fã deste dia. Não acho que faça muito sentido haver um dia em que é mais essencial mostrar o que sentimos do que nos outros. Além de que acho que devia ser o dia do casal. É um nome mais apropriado e inclusivo, e retira a pressão desigual sobre os namorados. No entanto, não recomendo tentar isto em casa. Eu tentei e agora tenho autorização para dormir no sofá até pedir desculpa.

20 dezembro, 2023

Mó de alce

– Então, homem, tudo bem?
– Ah, conseguiste vir! Como estás?
– Eh pá, não estás a ver no stress em que eu ando.
– Então, o que aconteceu?
– Nem te conto, é melhor nem falar.
– Ok, mudamos de assunto. Como vai a tua procura de casa?
– Vai bem, tenho deitado um olho aqui e ali, há algumas coisas interessantes.
– Boa, isso é bom, já podes pensar em sair de casa dos teus pais. Já visitaste alguma casa?
– Não. Quer dizer, pensei nisso, mas ainda não vi nada. Ainda não fui procurar.
– E viste o link que te mandei?
– Não cheguei a ver, ainda não tive tempo.
– Para abrir um link?
– Não, sabes como é... Uma pessoa quer ver, mas não consegue, há muita coisa à volta.
– Pois, claro. Só pensei que estavas a procurar activamente.
– E estou, é só que agora ando com este stress...
– Então?
– Nem quero falar nisso... É que vim agora do centro de saúde com os meus pais. Aquilo está difícil, estiveram a fazer análises à minha mãe e dizem que tem de mudar algumas coisas na alimentação e no estilo de vida, ou daqui a 2, 3 anos, tem problemas nos rins. Estás a ver porque não saio de casa, não é?
– Bom, é complicado, mas ainda falta algum tempo, e pode-se reduzir o risco até lá. Vais pôr a tua vida em espera por causa de uma coisa que pode nem acontecer? Tens tempo para ter uma vida organizada e poder ajudar os teus pais.
– Eh pá, pois... Não sei... Tenho de pensar... A propósito, sabes onde se arranja uma mó de alce?
– Mó de alce? Nunca ouvi falar.
– Foi a médica que falou nisso. Disse que se a minha mãe tiver problemas renais vai precisar de fazer uma mó de alce.
– Não terá dito “hemodiálise”? É o que se costuma fazer com problemas renais.
– Talvez, não sei, tenho de saber melhor. Mas estás a ver, ela diz isto, e a minha mãe fica preocupada, e depois o meu pai começa logo a ficar vermelho e a gritar “E agora? E agora? Que é que vamos fazer?”, e a médica “Xô Júlio, olhe que o xôr não se pode irritar, olhe a sua tensão alta”, e a minha mãe quase a desmaiar com os nervos “Julinho, tu acalma o teu pai, meu deus”...
– Espera aí, a tua mãe chama-te Julinho?
– É para distinguir do meu pai. E nisto, a médica a dizer “Isto ainda não é agora, vamos ter de rever ao longo do tempo, ainda está tudo bem”, mas o meu pai só bufava e ficava cada vez mais vermelho. A viagem de regresso foi um tormento, por isso é que demorei tanto tempo, estive a ver se acalmava os meus pais.
– Pois, percebo. Mas repara, ainda não é certo e têm tempo para se organizarem e ajustar no que for preciso.
– Sim, tens razão, e estou mesmo a precisar. Mas como isto está…

20 novembro, 2023

Inclusividade forçada

    É um tema controverso, mas é um problema que nos afecta a todos. Somos frequentemente confrontados com situações em que outras pessoas nos fazem sentir incómodos só por estarmos presentes, e isso só piora nesta altura do ano.
    Vêm aí as festas de Natal das empresas e, com elas, começam a chegar pedidos para participar nas actividades que se inventam para estas coisas. Claro que é sempre giro, mas é giro de ver. Mais do que isso já se torna um bocadinho chato. E para aqueles de nós que nem sempre estão no escritório, ainda é pior, porque isso depois é usado como justificação para nos convencerem a participar. É a versão corporativa da velha frase “tudo o que disser pode ser usado contra si”. “Nunca apareces, assim as pessoas ficavam a conhecer-te.” Pois, Vítor, mas quando vou ao escritório estou sempre com as mesmas sete pessoas, e devemos ser mais de cinquenta. Podia ir uma das outras, e assim também a ficava a conhecer.
    Mas não, é mais importante sermos nós a participar, o que é uma chatice. E se cairmos na asneira de ceder um bocadinho, estamos entalados. Fazer um pequeno texto sobre como é a vida na nossa cidade em confinamento rapidamente evolui para um “e se contasses no evento online em vez de escreveres?”, e já fomos apanhados. Depois, podemos fazer uma apresentação maior e mais completa no evento seguinte, já que correu tão bem, e, antes de darmos por isso, estão a propor que sejamos o anfitrião do evento. Ó Vítor, eu nem vou regularmente ao escritório, Vítor! “Pois, daí ser bom seres tu o anfitrião.” Raios partam, quando é que podemos voltar a ser apenas números para as empresas?

 

20 outubro, 2023

How terribly strange to be seventy.

    À medida que o cabelo vai caindo, vou pensando em que tipo de velho me vou tornar. Há vários caminhos a seguir, e não tenho a certeza se é uma escolha ou se é só a evolução natural da vida.
    Por falar em caminhos, será que vou ser daqueles que se consideram um GPS humano? Teria de passar os meus tempos de leitura com mapas do ACP, mas por mais que se estude, isso não traz os níveis de assertividade necessários para intervir em qualquer situação com indicações não pedidas sobre a melhor forma de chegar a Tábua, ao mesmo tempo que se rejeita qualquer sugestão quando se está ao volante.
    Ou será que vou decidir que o meu único propósito de vida é dedicar-me aos meus netos, a quem me passarei a referir exclusivamente como “o meu menino/a minha menina”? Nesta situação, tenho de ganhar traquejo a desviar conversas. Fazes surf? Os meus meninos gostam muito de nadar. Descobriste uma receita nova? Os meus meninos comem muito bem. O verdadeiro truque é conseguir ser incómodo q.b.. Mas, não tendo filhos, esta opção parece um pouco improvável, mesmo que seja uma escolha.
    Também estou interessado em saber se vou passar a usar artigos definidos por todo o lado. Quando era miúdo, estudei português e matemática, mas sinto que no futuro vou passar a ter estudado o português e a matemática. A par disto, os aniversários também vão mudar. Em vez de ter ido ao Portugal dos Pequenitos quando fiz 6 anos, a nova versão vai ser que fui fazer os 6 anos a Coimbra, ou que fui fazer os 10 a Lisboa. Espero que haja um período de adaptação, porque deve ser uma mudança difícil de fazer de um dia para o outro.
    Infelizmente, todas as opções implicam falar muito, que não é a minha praia. Seja uma escolha ou não, acho que vou ter de me casar com alguém que fale muito e deixar que seja ela a tratar de tudo, e eu só tenho de concordar ou dizer “parabéns” no final dos telefonemas. E assim, só tenho de comentar que a chuva até é boa, porque não faz tanto frio.

20 setembro, 2023

O meu reino por ¼

    Estamos naquela altura do ano em que mais se fala de quartos. É um bocadinho como o ciclo da água, começa como um problema sólido, vai-se derretendo, e evapora-se. Mais tarde, começa a condensar e torna-se sólido de novo.
    Com o regresso às aulas, muitos estudantes têm de se mudar para outra cidade e procurar um sítio onde ficar, momento esse em que se repara, escandalosamente, que os preços dos quartos são altíssimos para condições baixíssimas (excepto numa certa e determinada residência em Lisboa). Quase parece o mercado imobiliário nas grandes cidades. Na volta, estão relacionados.
    No entanto, não parece haver grande razão para isso acontecer. Até parece que os estudantes passam muito tempo em casa. Durante o dia, estão na faculdade, à noite, vão sair. Na verdade, só precisam de um sítio para dormir e guardar as coisas, e para tomar banho, caso seja necessário. Não se gasta assim tanta energia, e a degradação do espaço é mais ou menos a mesma que a de um edifício abandonado. A única altura em que usam os quartos é ao fim de semana. Não vale a pena ir a casa porque os pais estão no segundo emprego que arranjaram para pagar a renda. Quase podia ser por ganância, não fosse a ideia ridícula de alguém se estar a aproveitar de estudantes. Felizmente, agora há a nova lei da devolução das propinas por cada ano trabalhado em Portugal. Isto significa que, num curso de 3 anos, é devolvido o suficiente para uns 5 ou 6 meses de renda. Os outros 30 ficam logo mais leves.
    O mais estranho, e também a semelhança mais forte com o ciclo da água, é ser, de facto, cíclico. No início do ano escolar, é um problema gritante. Todos os jornais escrevem artigos onde apresentam valores médios das rendas, e mostram indignação. As televisões fazem reportagens à paisana com câmaras escondidas a falar com velhotas que alugam quartos pequenos em caves sem luz natural a 400€ por mês, sem recibo, e mostram indignação. Entretanto, as aulas começam, a maior parte dos estudantes já tem onde ficar, e têm de estudar. Depois, mete-se o natal e a época de exames, e não dá para pensar nisso. A seguir, vem o segundo semestre e é preciso estudar outra vez, depois exames, e pronto, acabou o ano.
    O chato é o calendário, porque isto acontece sempre ali no final de Agosto, início de Setembro, e os partidos costumam estar ocupados com a rentrée, que é o equivalente à época de exames. Só se pode pensar nisso quando acabar.

20 agosto, 2023

O que há num álbum?

    Para quem gosta de música, ou é um irritante melómano, há um padrão fácil de identificar. É um padrão que atravessa géneros, cada um com as suas adaptações específicas, mas costuma seguir a mesma linha. Esta linha é a da ordem pela qual as músicas são apresentadas nos álbuns. E é mais ou menos desta maneira:
    Faixa 1 – entrada forte e cheia de energia, pode ou não ser um single
    Faixa 2 – primeiro single, a música mais limada para a rádio e para ficar no ouvido à primeira
    Faixa 3 – segundo single, a música com mais rock, para mostrar o lado rebelde dos artistas
    Faixa 4 – terceiro single, uma balada, para mostrar que todos sentimos emoções
    Faixas 5 e 6 – a zona perdida, algumas ideias antigas dos artistas, sem interesse nenhum, que foram incluídas para encher espaço
    Faixa 7 – uma boa surpresa, de que toda a gente gosta e motivo de discussão em fóruns online sobre a razão de não ser um single
    Faixa 8 – por que raio gravaram isto?
    Faixa 9 – a melhor música do álbum, escondida no final por alguma razão desconhecida
    Faixa 10 – a música preferida do líder da banda, que não é grande coisa, mas que lhe diz muito. Depois, aguenta-se uns minutos de silêncio e aparece uma hidden track decepcionante.
    E pronto, é isto. Em geral, o primeiro álbum é bem polido pela editora para ter boa difusão logo de início. O segundo já é mais pessoal e ao estilo da banda. O terceiro é experimental e super estranho, e o quarto é o clássico ‘’regresso às origens’’, onde voltam ao estilo que tocavam antes de ser famosos, porque isso mostra o que a banda realmente é. Mas sempre sem quebrar o padrão.
    Portanto, proponho que isto seja revisto, e dou o meu contributo: um álbum deve começar com uma música que chame a atenção e mostre a alma da banda, com força e energia, mas sem ser o single principal do álbum. Esse vem a seguir, com uma música mais trabalhada e fácil de ouvir. Depois, pode vir uma música mais pesada, um pouco mais rebelde e talvez um pouco divertida. Logo a seguir, pode ser uma música mais calma, qualquer coisa que abrande o ritmo e tenha um bocadinho mais de emoção… Pensando bem, é melhor ficar por aqui.