20 fevereiro, 2023

Até vi estrelas

    Como qualquer pessoa normal, quando ouvi falar no C/2022 E3 (ZTF), o famoso cometa verde, quis saber como e quando o podia ver. E, como a mesma pessoa normal, não faço ideia se o vi. Principalmente, porque o cometa verde na verdade não é verde. Só é verde em frequências infravermelhas, e, com os meus binóculos normais, só seria visto como uma luz branca. Infelizmente, no dia em que se via melhor, estava na cidade, e no dia em que estive no campo, não era fácil de o identificar. Portanto, vi uma data de luzes brancas, sem saber qual delas seria o cometa. Mas sei o que não vi.
    Seres alienígenas. Quando andava de nariz no ar à procura, pensei que seria giro ver mais qualquer coisa surpreendente. E depois lembrei-me que isso agora já não é tão frequente. Tirando os documentos divulgados pelos EUA, que também não mostram nada muito visível, não se ouve falar disso com a mesma frequência de antes. É uma tristeza, e um desperdício. Agora que temos telemóveis e câmaras com cada vez melhor capacidade de imagem há cada vez menos incidência destes casos. Nos tempos em que uma mancha numa fotografia indicava visitantes de outro planeta, havia aos pontapés, e pessoas eram raptadas a torto e a direito. Mas já não temos nada disso. Podemos tirar selfies com qualidade incrível, e descobrir localizações só com base nessas fotografias, mas ninguém as usa para apanhar alienígenas. Mesmo os raptos são raros, e logo agora que tudo o que usamos tem GPS, era só ir ver o que acontecia nessas alturas.
    Na volta, os alienígenas perceberam que agora conseguíamos ver melhor e andam mais quietos. Ou então é como no episódio do Futurama, onde dizem que o habitat natural do Big Foot são zonas desfocadas. Entretanto, vou considerar investir num telescópio. Nunca se sabe.

21 dezembro, 2022

Um dia na vida de um jornalista desportivo

    Vítor acorda e prepara um café. Hoje, estará em teletrabalho, e decide só tomar banho depois de despachar a caixa de correio. Vê que tem um email do chefe de equipa com o título “template para transferências”, e indica que, uma vez que o mercado de transferências está quase a abrir e o mundial acabou, o foco da equipa deve ser criar sururu. Para facilitar, fez upload de um template para a cloud, que todos podem usar à vontade. Vítor vai buscar o documento, e abre-o no seu computador:
 
            “[inserir nome do jogador] a caminho de [inserir país]?
            
Relatos oriundos de [inserir país], veiculados pelo [inserir jornal/website], dão conta de um possível interesse do [inserir clube interessado] em [inserir nome do jogador]. O clube poderá avançar já para a compra, para evitar concorrência dos tubarões europeus no próximo verão.
Por seu lado, o [inserir nome do jogador] já fez saber junto dos seus representantes que vê com bons olhos uma mudança para [inserir país], e deu indicação para descobrirem junto do clube qual a disponibilidade para negociar. O [inserir clube] não deverá querer perder um jogador importante do onze, mas poderá querer capitalizar o seu bom momento de forma no [inserir competição mais recente], e assim abrir espaço no plantel para avançar para [inserir possível reforço].
Resta saber se o [inserir clube] aceitará negociar ou se remete o [inserir clube interessado] para a cláusula de rescisão.

*bónus por trocar países por alcunhas (exemplo: terras de sua majestade, transalpinos, bávaros...)
*bónus por trocar o nome do jogador por “ex-clube-português” (exemplo: ex-Benfica, ex-Porto, ex-Sporting...)
*bónus por trocar o nome do jogador pela posição em campo (exemplo: lateral, centro-campista, extremo...)”

    Outro email dizia para ignorar até 2027 tudo o que fosse relacionado com o facto de o organizador do mundial ter dito quem gostaria de ver levantar a taça, e ser dono do clube onde essa pessoa joga.
    Vítor vai tomar banho, satisfeito por ter 17 notícias prontas para publicar.

21 novembro, 2022

Áonde estiveste?

    Um flagelo maior que o acordo ortográfico assola a nossa língua. Bom, mais estranho, vá. Mas é um flagelo na mesma. De há uns tempos para cá, e geografia foi invadida por artigos definidos. Foi pouco depois da muito real invasão russa da Ucrânia, e quando voltou a ser preciso estudar o mapa da Europa para saber onde é o quê, e ver se está mesmo aqui ao lado ou se podemos deixar a preocupação para mais tarde.
    Mas é já aqui ao lado que o problema começa. Espanha agora diz-se a Espanha. Dantes, íamos a Espanha, agora vamos à Espanha. Porquê? De onde veio este “a” a mais? Não é só Espanha. Se formos a Paris, já não estamos em França, estamos na França. Isabel II foi toda a vida rainha de Inglaterra, para morrer como rainha da Inglaterra. A sul, houve mais uma troca de governo na Itália. Não se pode ouvir notícias sem ter ali um “a” metido em todo o lado, e os telejornais também ajudam. Até o primeiro-ministro diz que está a discutir com a Espanha e com a França o traçado do gasoduto. Quando oiço isto até me dá um tique no olho como o do Capitão Darling no Blackadder.
    Não estou a tentar ser superior. Eu digo “mídia” quando falo dos média e sei que não está certo. Quando desço a Avenida de Ceuta, estou em “Alcântra”, mas sou o único, porque toda a gente está em Alcântara (ou na Alcântara?). Só quero saber de onde vem a moda e o porquê de se ter generalizado tão rapidamente. Há uns anos, começou a dizer-se “parecido a”, que não está errado, em vez de “parecido com”, mas não foi tão difundido e pelo menos não é um “deve de ser”. Será que foi para facilitar? Se calhar foi alguém que esteve de férias e não soube como responder à pergunta “onde estiveste?”, e teve de inventar qualquer coisa à pressão. “Olha, estive em… no… na… Espanha. Foi isso, estive na Espanha e trouxe caramelos”. Na volta, quem o ouviu achou que era uma forma erudita de falar e decidiu começar a usar. Depois, com as redes sociais, já se sabe.
    E nós, em que ficamos? A partir de agora é o Portugal? Já não vivemos em Portugal, mas no Portugal? É importante saber, está aí o mundial e é preciso saber se vamos ver um Portugal-Marrocos, ou um O Portugal - Os Marrocos. E ainda vai ser preciso ir rever artigos e notícias antigas, porque nós não ganhámos o Euro 2016 em França. O Portugal venceu a França na final, na França.

26 outubro, 2022

Toca aquela!

    Agora que estamos no período entre as festas de verão e de fim de ano das televisões, é altura para reflectir sobre uma parte importante destes eventos, que é a banda sonora.
    Estas festas servem para mostrar a caderneta de cromos de famosos, que costumam ser sempre os mesmos, com um ou outro que esteja na berra no momento, mas tudo aos gritos, porque a música está sempre altíssima. Isto já vem dos programas em que os famosos aparecem a falar da sua vida por cima de música alta (como aquele do senhor que põe toda a gente a chorar), mas aqui temos a vantagem de poder ver todos ao mesmo tempo. Não podemos é ouvi-los bem, porque o DJ está a abafar toda a gente.
    No entanto, os repórteres que estão no evento, e são muitos, porque estão na entrada, no palco, na plateia e no bar, não deixam passar a oportunidade de perguntar aos famosos qual o estilo de música de que gostam e o que querem ouvir naquele preciso momento. As respostas não variam muito, ou é um clássico do artista que lançou o álbum mais recente, ou é um single desse mesmo álbum e que passa um monte de vezes por dia na rádio. A pergunta é gritada, a resposta também, e o repórter grita ao DJ para tocar aquela música específica. O DJ sorri, faz sinal de “fixe” com a mão e acena com a cabeça, mas a música não muda, e a seguinte não é a que os famosos pediram. Faz pensar no porquê de se fazer pedidos.
    Podia parecer que o DJ tinha ignorado o pedido, e talvez com razão, porque ter umas 50 pessoas a pedir as mesmas músicas a noite toda não contribui para um bom ambiente no local de trabalho. Mas acho mais provável que seja só por não ouvir. Com aquela barulheira toda, não deve conseguir perceber o que lhe estão a dizer, e deve assumir que estão a gostar, portanto, agradece. Estou convencido que será isto, porque ele já lá esteve na festa anterior e já foi contratado para a próxima, e em equipa que ganha, não se mexe.

21 setembro, 2022

You've got mail

    Recentemente, recebi um convite da minha empresa para participar numa formação online sobre emails. Especificamente, etiqueta ao enviar emails. Achei que era uma coincidência engraçada, visto que 80% do meu trabalho é mandar emails.
    Aprendi algumas coisas interessantes, apesar de não haver grandes novidades. Por exemplo, ter bem definido para quem se deve enviar o email. Parece óbvio, mas quase toda a gente já fez o clássico “responder para todos” com uma pergunta simples e ter respostas de gente que não faz ideia do que se está a falar. No entanto, o exemplo dado no curso foi enviar um email para o departamento tecnológico a perguntar se as vendas foram feitas. Diria que isto já é um bocadinho esticar a corda do “ups, não era para ti”. Junta o erro ocasional com adivinhação de quem deve fazer o quê, como se quando se escreve um email, se pensa “vou mandar ao Vítor, ele deve saber”. Talvez se esteja a generalizar esta ideia.
    Outro assunto engraçado foi a diferença entre “para”, “cc” e “cco”. O “cco” é fácil de entender, mas a pessoa “escondida” depois não recebe a resposta, o que implica ter que encaminhar a resposta, e isso não é amigo do famoso time management. Já o “para” e o “cc”, são a mesma coisa, com roupagem diferente. Os emails vão na mesma para as pessoas certas e todas sabem quem recebeu, mas quem estiver em “cc”, já sabe que não precisa de se preocupar. O “cc” tem também a vantagem de poder ter lá o nosso chefe, sempre dá um pouco mais de força ao email. Ou pior, o chefe da pessoa a quem estamos a mandar o email.
    O meu assunto preferido foi, de longe, responder a feedback. É do mais absurdo e hilariante que se pode imaginar, e este foi o exemplo dado: Depois de ter feito uma apresentação, recebeu um email do colega Vítor a apontar algumas falhas na sua comunicação e como podia ter aproveitado os slides para passar melhor a mensagem. Qual acha que será a reacção correcta?
        a) não responder;
        b) insultar o Vítor;
        c) agradecer o feedback, e perguntar por exemplos concretos que lhe pareçam mais urgentes, sugerindo a possibilidade de se reunirem para ver em pessoa.
    Nem é preciso ler as opções para saber que a resposta mais longa é a certa. Tantos anos a estudar tinham de servir para alguma coisa. Mas as outras opções são fantásticas. Já tive vontade de ignorar emails, mas nunca pensei que fosse uma hipótese válida. Até porque depois abrimos a porta do escritório e a pessoa está mesmo ali, ou então o chefe passa e lembra-nos que falta responder à tal pessoa. O insulto é ainda melhor. A resposta apropriada para “tenta falar mais devagar e respirar entre frases” é “o que é que tu queres, meu palhaço?”. Com certeza que já todos nos cruzámos com colegas mais chatos, mas partir para o insulto é um salto um bocadinho grande.
    Até porque ainda vai em “responder para todos”, e é uma chatice gigante.

24 agosto, 2022

Fechar o livro

    18:15. João devia estar quase a chegar a casa. Ana sentia o momento como a última vez que o recebia. No fundo, forçou-se a sentir isso. Não podiam continuar assim, algum dia teriam de fechar o livro, e Ana escolheu aquele dia.
    Ouviu o toque do elevador a chegar ao andar. Porta abre, porta fecha, chaves a tilintar. O barulho habitual da chave na fechadura precede a entrada de João. Ana sentou-se num canto do sofá, não lhe apetecia esperar por ele à porta.
    – Olá – o cumprimento habitual, desligado, de quem não espera resposta.
    – Olá. Como foi o teu dia?
    – Hm – João encolheu os ombros, como sempre. Pousou a mala, tirou o casaco e sentou-se no outro canto do sofá. – Normal, igual aos outros.
    Ficaram virados um para o outro. Olharam-se sem falar. Uns meses antes, aqueles eram dos melhores momentos que tinham. Não era preciso falar, e o entendimento fluía. João parecia apenas entediado. Rodou o corpo para chegar atrás do braço do sofá e agarrar um jornal qualquer, mas a mão não encontrou nada.
    – Mudaste o cesto dos jornais de sítio?
    – Sim. Estão na tua secretária.
    – Porque os tiraste do cesto? – João parecia estranhar mais esta mudança do que a resposta curta.
    – Porque o levei para casa do meu irmão.
    – Porquê? – O tom da pergunta sugeria que a atitude era absurda.
    – Estive em arrumações – respondeu Ana calmamente. – Arrumei o que era meu, e esse cesto veio de minha casa. Gosto muito dele – não era completamente verdade, só o queria de volta porque o tinha trazido, mas João não precisava de saber isso.
    Lentamente, os olhos de João começaram a ganhar vida. Via-se que tentava perceber o que estava a ouvir. A resposta era previsível, tal como ver filmes repetidos. A diferença era apenas a duração. Este filme durava três meses em vez de duas horas. Ana viu os olhos dele subir da sua cara para a estante por trás dela. A boca ligeiramente aberta mostrava surpresa, e o ar entrava e saía em maior quantidade. Reparava, pela primeira vez, que duas das prateleiras estavam vazias. Ana não percebia como, já tinha levado os livros para casa do irmão há quase uma semana. “Homens…”
    – Tiraste livros? – as palavras saíram com um tremor mal disfarçado.
    – Tirei os meus. Tirei os que comprei para estudar, para trabalhar, e os que lia aqui.
    Ouviu-o repetir a sua frase num murmúrio. “Arrumei o que era meu…”. João levantou-se do sofá devagar. Passou os olhos pela sala, e o movimento parou nos sítios onde os dois candeeiros deviam estar. Abriu a porta de correr de um dos armários e viu que as taças onde sempre comeram gelados já lá não estavam. Foi para o corredor e espreitou para dentro do escritório a caminho do quarto. Ana ouviu as gavetas da cómoda abrir e fechar, o chiar da porta do armário, e os passos pesados e lentos de um lado para o outro.
    Voltou à sala. Tinha os olhos vermelhos e uma mistura de tristeza e incredulidade na cara. Apesar de estarem naquela situação há vários meses, a sensação de se estar finalmente a tornar real parecia tê-lo abalado, como se tivesse sido abalroado por um camião.
    – Está tudo vazio… Como… Quando levaste as coisas? – não queria acreditar no que estava a acontecer.
    – Fui levando, aos poucos. Como só trabalho de manhã, tive muito tempo para pensar, digerir o que sentia, e planear.
    – Mas porque não me disseste nada? – o choque deixou-o imobilizado, de pé na entrada da sala a olhar para os pés dela.
    – Deixaste de falar comigo. Para ser sincera, não me pareceu sequer que o quisesses. E sei que tinhas coisas para dizer. Consigo sempre perceber em que estás a pensar só pelos teus olhos, mas não vinha nada cá para fora. Não vinha! Deixaste de falar comigo.
    João abriu e fechou a boca algumas vezes, sem fazer nenhum som.
    – Não deixei… – murmurou, e parou.
    – Não deixaste? – Ana levantou a voz. Não por estar zangada, já tinha passado essa fase, apenas para ter alguma reacção dele. – Achas que perguntar como foi o meu dia ou dizer que viste um filme giro ou que foste almoçar com os teus amigos é falar? Isso é dizer coisas! Nós falávamos dia e noite, sobre tudo! Se me vais dizer que não notas diferença, então este dia já devia ter acontecido há muito tempo.
    – Não, claro que notei – finalmente, uma reacção. – Claro que estranhei falarmos menos e nunca durar muito tempo. É só que… Não sei… sinto-te distante.
    – Não sentires isso é que seria estranho. Afastaste-me! Empurraste-me para longe de ti. Não falavas comigo, não querias que fosse almoçar contigo, não me davas nada. Quase rezei para ver alguma coisa que mostrasse que me tomavas por garantida. Ao menos, podia ter razão para estar furiosa, para te gritar, para sair porta fora. Mas não, só senti que era indiferente para ti. Aproveitei as tardes aqui sozinha para chorar tudo o que tinha para chorar, e depois arrumar as minhas coisas. E isto também não foi fácil, porque comecei pelas coisas óbvias. Os candeeiros, os livros, o meu computador no escritório. Mas nada, não reagiste, não perguntaste porque a minha secretária estava vazia, nada. Só serviu para perceber a atenção que me davas, que davas à nossa vida.
    João continuava parado. A sua expressão triste mostrava alguma resignação, de certeza que estava à espera deste momento. Provavelmente, não queria que acontecesse, tal como Ana, mas aquele ambiente não podia continuar, e Ana tomou as rédeas e decidiu que o assunto ia ficar resolvido naquele dia.
    – Desculpa – disse João, em voz baixa. – Desculpa, quando senti que as coisas estavam diferentes, fechei-me. Pensei que a onda podia passar se me baixasse. Não queria chegar a este ponto. Não quero. Sinto por ti o que sempre senti, mas qualquer coisa mudou, não sei explicar. Esta incerteza deixa-me doido. Fico bloqueado e deprimido. Quando pensei que isto pudesse acontecer, fugi do assunto. Eu sei que tem de ser, mas não quero…
    Ana levantou-se e abraçou-o. João começou a chorar baixinho no seu ombro e apertou-a com força.
    – Eu sei… Mas tem de ser, não podemos continuar assim. Só nos faz sofrer. Se não estamos felizes, temos de procurar o que nos faça felizes. E se para isso, temos de nos separar, é o caminho que temos de fazer.
    João apertou-a uma última vez, e afastaram-se devagar. Deram um último beijo na testa um do outro, como tantas vezes tinham feito, e largaram-se.
    Ana pousou as chaves no armário da entrada. Abriu a porta, mas olhou para trás antes de sair. A relação deles tinha sido única, não pensava que fosse possível. Ele próprio tinha dito isso no início. Só desejava voltar a sentir isso, e que ele também o sentisse. Uma parte dela sentia-se triste por não ser um com o outro. Mas era impossível.
    No elevador, respirou fundo e deixou as lágrimas cair. O ar fresco da noite confortou-a até ao carro, onde descobriu o último livro que tinha tirado de casa esquecido aberto no banco. Uma prenda dele, e por isso, o último a sair. Respirou fundo de novo e, antes de arrancar, fechou o livro.

16 julho, 2022

A Midsummer Night’s Rant

    Eu gosto de história. Sempre adorei estudar história, e ler livros e artigos sobre antigas civilizações, crescimento e queda de impérios, evoluções e revoluções, descobertas, o que apanhasse. Adorava poder ter visto a queda do Muro de Berlim, mas tinha nascido há pouco tempo e nem sabia que a Alemanha existia, muito menos que havia duas. Mas tive sempre o desejo de viver tempos históricos como esse, momentos que mudam o mundo da noite para o dia.
    O século XX é, aliás, uma época a que gostaria de poder ter assistido de uma ponta à outra. Não que seja melhor do que os séculos anteriores. O Século XIX começou com as guerras Napoleónicas e acabou com a literatura de ficção científica de H. G. Wells, e teve as teorias revolucionárias de Karl Marx pelo meio. Cada século tem milhares de acontecimentos marcantes, mas os do século XX puxam mais por mim. Acho fascinante ler a evolução dos acontecimentos e pensar “como é que ninguém deu por isto?”, e fico intrigado com a incapacidade de travar as coisas mais negras que aconteceram nesse tempo.
    Depois, como é óbvio, noto as semelhanças com a actualidade. A “paz armada” que antecedeu a Primeira Guerra Mundial e a sua violência, e os investimentos militares das maiores potências mundiais de hoje, mas que são feitos apenas por precaução. O crescimento de ideologias extremistas e opressivas no prenúncio da Segunda Guerra Mundial, e alguns dos líderes eleitos nos últimos anos nessas mesmas potências. As crises económicas devastadoras, quando a economia “consegue” antecipar essas crises. E, no meio disto tudo, uma pandemia que varreu o planeta e matou milhões de pessoas num instante.
    A pandemia teve algumas vantagens, como o teletrabalho. Mas também mostrou quem manda. Durante o tempo em que tudo esteve parado, os níveis de poluição no ar melhoraram. E tal como o melhor aluno da turma avisa o professor que se esqueceu do trabalho de casa, alguém se lembrou que isso não era rentável, e lá voltou tudo a funcionar. À margem disto, fazem-se conferências para definir que a temperatura global não pode aumentar mais do que 1.5 graus. E depois, começa uma guerra, para ajudar a atingir o objectivo.
    A par disto, a luta pela conquista de direitos sociais leva uma mocada, com a auto-intitulada melhor democracia do mundo a finalmente deixar de fingir que considera todas as pessoas iguais. Mais ou menos metade da população deixa de poder decidir o que fazer com o seu próprio corpo, porque não tem antecedente histórico para o fazer. Esta decisão vem a mando de uma facção fundamentalista religiosa, num país teoricamente laico, e com as maiores liberdades do mundo, incluindo religiosa. No entanto, praticantes de outras religiões, ou de nenhuma, levam por tabela. E esta decisão deixa a porta aberta para que outras pessoas sejam ainda menos iguais. Os vizinhos não podem casar com uma pessoa qualquer. Que vem a ser isto?
    Com tanta coisa a acontecer, acho que já vivi acontecimentos marcantes suficientes. Se calhar, podíamos ficar por aqui.
    Ou, pelo menos, arranjar qualquer coisa menos marcante. Assim tipo encontrar uma t-shirt gira, mas que é demasiado grande. “Tem igual mas mais pequeno?”