20 maio, 2024

A importância qualitativa do um

    O nosso mundo está cheio de comentários. Seja nas notícias online, nas redes sociais, ou nas televisões. E na maior parte deles, há uma coisa em comum. Que é o “um”.
    Um, diz-nos a música, é o número mais solitário que há, mas é também um indicativo (ou garante, como se usa agora na política) de qualidade. O “um” indica algo único e específico. Nos debates legislativos, os deputados pedem uma política para a habitação, saúde, e tal, mas não políticas para a habitação, saúde, e tal. Logo, uma política é melhor que políticas.
    No desporto, “um” indica um jogador-tipo, melhor do que os outros, incluindo o próprio. Quantas vezes já foi dito que “para ter vantagem contra determinado adversário, é preciso ter um Rafa na frente”? Inúmeras, no entanto, não se está a falar especificamente de ter o Rafa na frente. É um jogador como ele, mas não necessariamente ele, o que não faz muito sentido, visto que o Rafa é, de facto, o Rafa. Há que ter liderança no eixo da defesa com um Ricardo Carvalho, mas não precisa de ser o Ricardo Carvalho. Por alguma razão, um Ricardo Carvalho é melhor do que o Ricardo Carvalho.
    À mesa, temos a mesma situação. Esta refeição fica bem com um vinho do Porto. Não com vinho do Porto, mas com UM vinho do Porto. Tal como também tem mais peso dizer que se quer comer uma feijoada do que dizer que se quer comer feijoada. Um bife à Império é mais saboroso do que o bife à Império.
    Na volta, devia mudar o nome deste blog… Num chão da sala? No chão de uma sala? Num chão de uma sala?

20 abril, 2024

I’m doing my part!

    Vivemos tempos conturbados, não há como negar. E ao que parece, vão ser ainda piores (vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem). Seja na Ucrânia, na Palestina, ou em Taiwan, vem aí uma tempestade. E isto é sem falar de todos os outros conflitos a decorrer no resto do mundo.
    Nós temos sorte. Viver em Portugal é viver numa bolha, dentro da bolha que é a UE, dentro da bolha que é o mundo ocidental. Esta sorte pode estar a acabar. Eu sou dos que acredita que a Rússia não está interessada só na Ucrânia, e considerando que no final do ano o maior apoiante do presidente russo pode ser reeleito nos EUA e sair da NATO, diria que estamos em perigo, mesmo estando longe geograficamente.
    A pensar nisso, voltou a falar-se com mais força do serviço militar obrigatório (SMO) em Portugal. Como habitual, foi tirado do contexto. O que li do que disse o Capitão Iglo das vacinas foi que se devia estudar essa hipótese. Portanto, para a opinião pública, o SMO vai começar no final do mês. Não sei como uma coisa levou a outra, mas entretanto houve vários textos a falar sobre isso. Este vem fora de tempo, mas é só mais um e ninguém lê este blog, até parece que faz diferença.
    Li um texto em que se referia ao serviço militar na Constituição como um direito e um dever. Penso que não só está certo, como é algo de que todos temos de ter consciência. No entanto, não concordo que isso leve ao SMO. Não tenho nada contra o serviço militar, apenas contra o facto de se obrigar alguém a fazê-lo. Em geral, as pessoas que são a favor não são as que serão obrigadas a fazê-lo. Ou porque já o terão feito ou por terem seguido a carreira militar. Mas argumentam que faz bem a toda a gente, porque lhes fez bem a eles, tal como faz bem a toda a gente trabalhar a 100% no escritório no período pós-pandemia. Somos todos iguais no que toca ao que faz bem. É aquele paternalismo do “vais ver que mais tarde me vais agradecer”. E também do “acho que deve ser feito, mas não por mim”.
    Eu sou das primeiras gerações a fazer o Dia da Defesa Nacional, onde nos são apresentados os três ramos do serviço militar e nos é dada a opção de querer saber mais e escolher seguir por esse caminho. Sou, portanto, da geração que reivindica pelos direitos, e refila com o resto. A opinião da minha geração vale um bocadinho menos do que as outras, mas se para combater o menor número de voluntários é preciso obrigar pessoas a fazê-lo, diria que se está a seguir pelo caminho errado.
    Há o argumento que o SMO é uma escola de cidadania. Nunca pensei que cidadania se adquiria com alguém aos gritos connosco o dia todo, com castigos físicos, obediência inquestionável à hierarquia, e tratamento duro em geral. Se a cidadania precisa de uma escola, na volta era mais adequado fazê-lo, lá está, na escola.

20 março, 2024

De [que estás] a falar?

    Nos últimos tempos, tenho [estado] mais atento a notícias nos jornais online. Só para ter uma ideia se vamos todos [para a] frente leste, nada de mais. Reparei que agora há mais artigos com citações que [usam] parêntesis rectos para, de certa forma, “compor” a citação. Assim, a frase “isso é uma situação preocupante” torna-se “[a anexação ilegal] é uma situação preocupante”, que é muito mais fácil de perceber.
    No entanto, há citações [que não] fazem sentido sem o que é corrigido, o que me [deixa] curioso por saber como era a frase real, ao ponto de parar de ler o artigo e fazer suposições. Sem ser obsessivo, [claro]. Mas quando leio frases como “também [tenho] um, mas não uso”, a real questão é o que está o “tenho” a substituir? E “quando chegar a ocasião, [conto] estar presente”? O “conto” era um “vou”? “Estou a pensar”? E não podiam estar lá? Às tantas, já nem sei [o que estou] a ler, só quero descobrir o que lá podia estar. Algumas puxam [mais pela] curiosidade, porque parecem estar em pontos aleatórios nas frases.
    O que me fez pensar: será que dá para escrever um artigo que só faça sentido com parêntesis rectos?

20 fevereiro, 2024

Dia dos namorados

    Estamos na altura do dia dos namorados. Com toda esta animação, faz falta relevar um ponto de vista muitas vezes ignorado.
    O nome é dia dos namorados, mas na verdade é mais o dia das namoradas. Neste dia, o namorado planeia um dia especial, com um jantar especial, uma prenda especial, um passeio especial, uma noite especial, tudo especial, para a namorada. Se não fizer, incorre na sua fúria, e depois tem de se redimir e compensar o erro.
    Tudo isto, num dia escolhido aleatoriamente. Na verdade, não é aleatório, é relacionado com a morte do mártir São Valentim que, além de ser associado ao amor, é também o santo padroeiro da cidade de Terni em Itália, da epilepsia, e dos apicultores. Um santo muito ecléctico. Mas o que interessa, é que este dia é o escolhido para mostrar o quanto se gosta da nossa cara-metade. E o resto do ano? Não conta? Basta garantir que se arrumam as compras e não se ressona?
    Não sou grande fã deste dia. Não acho que faça muito sentido haver um dia em que é mais essencial mostrar o que sentimos do que nos outros. Além de que acho que devia ser o dia do casal. É um nome mais apropriado e inclusivo, e retira a pressão desigual sobre os namorados. No entanto, não recomendo tentar isto em casa. Eu tentei e agora tenho autorização para dormir no sofá até pedir desculpa.

20 dezembro, 2023

Mó de alce

– Então, homem, tudo bem?
– Ah, conseguiste vir! Como estás?
– Eh pá, não estás a ver no stress em que eu ando.
– Então, o que aconteceu?
– Nem te conto, é melhor nem falar.
– Ok, mudamos de assunto. Como vai a tua procura de casa?
– Vai bem, tenho deitado um olho aqui e ali, há algumas coisas interessantes.
– Boa, isso é bom, já podes pensar em sair de casa dos teus pais. Já visitaste alguma casa?
– Não. Quer dizer, pensei nisso, mas ainda não vi nada. Ainda não fui procurar.
– E viste o link que te mandei?
– Não cheguei a ver, ainda não tive tempo.
– Para abrir um link?
– Não, sabes como é... Uma pessoa quer ver, mas não consegue, há muita coisa à volta.
– Pois, claro. Só pensei que estavas a procurar activamente.
– E estou, é só que agora ando com este stress...
– Então?
– Nem quero falar nisso... É que vim agora do centro de saúde com os meus pais. Aquilo está difícil, estiveram a fazer análises à minha mãe e dizem que tem de mudar algumas coisas na alimentação e no estilo de vida, ou daqui a 2, 3 anos, tem problemas nos rins. Estás a ver porque não saio de casa, não é?
– Bom, é complicado, mas ainda falta algum tempo, e pode-se reduzir o risco até lá. Vais pôr a tua vida em espera por causa de uma coisa que pode nem acontecer? Tens tempo para ter uma vida organizada e poder ajudar os teus pais.
– Eh pá, pois... Não sei... Tenho de pensar... A propósito, sabes onde se arranja uma mó de alce?
– Mó de alce? Nunca ouvi falar.
– Foi a médica que falou nisso. Disse que se a minha mãe tiver problemas renais vai precisar de fazer uma mó de alce.
– Não terá dito “hemodiálise”? É o que se costuma fazer com problemas renais.
– Talvez, não sei, tenho de saber melhor. Mas estás a ver, ela diz isto, e a minha mãe fica preocupada, e depois o meu pai começa logo a ficar vermelho e a gritar “E agora? E agora? Que é que vamos fazer?”, e a médica “Xô Júlio, olhe que o xôr não se pode irritar, olhe a sua tensão alta”, e a minha mãe quase a desmaiar com os nervos “Julinho, tu acalma o teu pai, meu deus”...
– Espera aí, a tua mãe chama-te Julinho?
– É para distinguir do meu pai. E nisto, a médica a dizer “Isto ainda não é agora, vamos ter de rever ao longo do tempo, ainda está tudo bem”, mas o meu pai só bufava e ficava cada vez mais vermelho. A viagem de regresso foi um tormento, por isso é que demorei tanto tempo, estive a ver se acalmava os meus pais.
– Pois, percebo. Mas repara, ainda não é certo e têm tempo para se organizarem e ajustar no que for preciso.
– Sim, tens razão, e estou mesmo a precisar. Mas como isto está…

20 novembro, 2023

Inclusividade forçada

    É um tema controverso, mas é um problema que nos afecta a todos. Somos frequentemente confrontados com situações em que outras pessoas nos fazem sentir incómodos só por estarmos presentes, e isso só piora nesta altura do ano.
    Vêm aí as festas de Natal das empresas e, com elas, começam a chegar pedidos para participar nas actividades que se inventam para estas coisas. Claro que é sempre giro, mas é giro de ver. Mais do que isso já se torna um bocadinho chato. E para aqueles de nós que nem sempre estão no escritório, ainda é pior, porque isso depois é usado como justificação para nos convencerem a participar. É a versão corporativa da velha frase “tudo o que disser pode ser usado contra si”. “Nunca apareces, assim as pessoas ficavam a conhecer-te.” Pois, Vítor, mas quando vou ao escritório estou sempre com as mesmas sete pessoas, e devemos ser mais de cinquenta. Podia ir uma das outras, e assim também a ficava a conhecer.
    Mas não, é mais importante sermos nós a participar, o que é uma chatice. E se cairmos na asneira de ceder um bocadinho, estamos entalados. Fazer um pequeno texto sobre como é a vida na nossa cidade em confinamento rapidamente evolui para um “e se contasses no evento online em vez de escreveres?”, e já fomos apanhados. Depois, podemos fazer uma apresentação maior e mais completa no evento seguinte, já que correu tão bem, e, antes de darmos por isso, estão a propor que sejamos o anfitrião do evento. Ó Vítor, eu nem vou regularmente ao escritório, Vítor! “Pois, daí ser bom seres tu o anfitrião.” Raios partam, quando é que podemos voltar a ser apenas números para as empresas?

 

20 outubro, 2023

How terribly strange to be seventy.

    À medida que o cabelo vai caindo, vou pensando em que tipo de velho me vou tornar. Há vários caminhos a seguir, e não tenho a certeza se é uma escolha ou se é só a evolução natural da vida.
    Por falar em caminhos, será que vou ser daqueles que se consideram um GPS humano? Teria de passar os meus tempos de leitura com mapas do ACP, mas por mais que se estude, isso não traz os níveis de assertividade necessários para intervir em qualquer situação com indicações não pedidas sobre a melhor forma de chegar a Tábua, ao mesmo tempo que se rejeita qualquer sugestão quando se está ao volante.
    Ou será que vou decidir que o meu único propósito de vida é dedicar-me aos meus netos, a quem me passarei a referir exclusivamente como “o meu menino/a minha menina”? Nesta situação, tenho de ganhar traquejo a desviar conversas. Fazes surf? Os meus meninos gostam muito de nadar. Descobriste uma receita nova? Os meus meninos comem muito bem. O verdadeiro truque é conseguir ser incómodo q.b.. Mas, não tendo filhos, esta opção parece um pouco improvável, mesmo que seja uma escolha.
    Também estou interessado em saber se vou passar a usar artigos definidos por todo o lado. Quando era miúdo, estudei português e matemática, mas sinto que no futuro vou passar a ter estudado o português e a matemática. A par disto, os aniversários também vão mudar. Em vez de ter ido ao Portugal dos Pequenitos quando fiz 6 anos, a nova versão vai ser que fui fazer os 6 anos a Coimbra, ou que fui fazer os 10 a Lisboa. Espero que haja um período de adaptação, porque deve ser uma mudança difícil de fazer de um dia para o outro.
    Infelizmente, todas as opções implicam falar muito, que não é a minha praia. Seja uma escolha ou não, acho que vou ter de me casar com alguém que fale muito e deixar que seja ela a tratar de tudo, e eu só tenho de concordar ou dizer “parabéns” no final dos telefonemas. E assim, só tenho de comentar que a chuva até é boa, porque não faz tanto frio.